2003-12-29

DEVIA TER MORRIDO MAIS UM

Nota Prévia: A história que se segue é insuportável, mas real, e apenas me chegou, como a todos, em branco. O que passo a fazer, tenho de fazer. Por egoísmo, confesso.

"Cansada, Maria decide dobrar o seu dia.
É madrugada.

Faz a ronda por três dos cantos do quarto, e afaga a cabeça de cada um dos seus nove filhos, sentindo-lhes a respiração profunda e ofegante. Dormem.

Depois arrasta-se para o seu canto.
Tem alguma urgência em deitar-se, fechar os olhos, adormecer, render o corpo.
Sabe que vai amanhecer em breve, e isso perturba-a.

Não se inquieta. Beija a fonte esquerda de Moahammad, cala-lhe os gemidos sonolentos com uma mão doce sobre os lábios, e murmura:

"Vai acordando. São quase horas da oração."

Moahammad dá graças a Deus. Prefere mil vezes aquele despertar mulher, bússola da sua existência, à violência contida da primeira luz da manhã.

Moahammad toma para si uns minutos. Sorri, fixando na penumbra o seu amor por Maria, dedilhando os contornos do seu rosto. E mareja os olhos quando se deixa ouvir a respiração de cada filho.

Nesse segundo, sabe que nunca será pobre.

Levanta-se lentamente, preguiçando.
Põe sobre os ombros a manta do costume, e sai para o pátio da casa.
Vira-se para Meca, e começa.

Está frio, muito frio, mas Moahammad está ainda a escaldar no seu sorriso feliz.

Logo de seguida, a terra abre.
E fecha.
E comprime.
E treme.

O dia a nascer e a escurecer de vez?

Quando, não sabe, mas sabe que muito depois, com o corpo a doer, Moahammad abre os olhos a custo.
Está coberto de entulho.
Nas primeiras horas, não se pode mexer.

Fica envergonhado quando, só ao fim de dez horas a mover centímetros do seu corpo, tentando sobreviver, emergindo do entulho, se lembra que a sua família pode ter tido outra sorte.

Abre espaço para que a sua primeira lágrima se enlameie. E o seu desespero começa quando se levanta, e vê que sobreviveu ao terramoto.

Maria consegue ouvir os gritos desesperados do marido, mas, do pouco que sente, tem uma vaga noção de que nunca vai conseguir gemer sequer.
Sabe que vai morrer, e sabe que vai ser em breve, com a dor suprema em si.
Podia não ter ouvido, mas ouviu.
Ouviu Moahammad gritar, um por um, o nome dos seus nove filhos e filhas.
E sabia o que isso queria dizer.

Maria ainda conseguiu pensar um porquê. De Raiva.
Mas nem sequer chorou.

O maior temor de um pai estava ali, debaixo do outro monte de escombros. Conta-se que tudo foi rápido, que ninguém sofreu. Espera-se sempre.

Nós, os vivos, é que não suportámos o contrário.

Josef crava as mãos nos ombros de Moahammad, depois envolve-lhe as faces com a mais violenta ternura.
Os dois homens olham-se de negro e no negro de cada um.

Sumindo-se a voz, percebe-se de Josef:
- ...dizem que podem ser mais de cinquenta mil...

Mohammad volta a sentar-se sobre os escombros, onde está há dias a gritar sem dormir, e usa as suas mãos geladas para alçar duas pedras, que tenta esmagar uma contra outra, cerrando os dentes.

Com as maçãs do rosto esfoladas do frio e do sal das lágrimas, faz correr mais uma, lenta, grossa, infinita:

- Devia ter morrido mais um.



Pedro Guilherme-Moreira
29 de Dezembro de 2003

P.S.: Não sei fazê-lo de outra forma, mas não conseguia ficar calado. Nenhum de nós pode suportar ou conceber o que se passa em Bam. E se a história, real, que acabei de colorir por necessidade, é já em si insuportável, o que será milhares de histórias iguais? O incrível é que, se o horror das Twin Towers se prolongou em meses de solidariedade, este, que, não se podendo realmente medir, pode ser, aritmeticamente, dez vezes pior, vai ser esquecido em poucos dias. Vai uma aposta?
Perante isto, não há mesmo paciência para aturar os cínicos do dia-a-dia. Que até a bondade intrínseca conseguem agoirar. Perante isto, raios me partam a mim, se não hei-de mudar a minha partícula do mundo.

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