2003-11-10

A VISÃO

A porta rangeu.
António Pastor chegava a casa ainda a tresandar a ovelhas e a cabras. Tirou o chapéu de aba larga, poisou o cajado, passou as mãos por água e, na sua voz rouca de tabaco mata-ratos, lá atirou à mulher as palavras do costume:
_ Maria do Céu, como estão as novidades?
_ Uma pobreza, António. Este ano, nem os chícharos medram.
Dizia isto com sentida mágoa, pois todo o seu mundo se resumia à casita e à horta. Cinco décadas! Cinco décadas a arrumar, a lavar, a tratar da bicheza, a aturar as más palavras do marido, a cavar a horta. Muito mais de meio século ostensivamente estampado no rosto, nas mãos, no corpo e... na alma. De olhar vago e frio, herança da cova glaciar onde sempre vivera, ajeitou a toalha remendada sobre a mesa.
Enquanto sorvia as primeiras colheradas de sopa de feijão vermelho, António surpreendeu a mulher:
_ Amanhã, quero que venhas comigo. Reforça o farnel que de Manteigas lá acima é um puxão dos bons.
Uma sensação estranha apoderou-se dela. Inconscientemente, persignou-se.

Nessa noite, rezou o Acto de Contrição vezes sem conta. Ir lá acima! Tão perto do Céu e do Senhor! Tinha de ir limpa, tinha de ir pura.

O azul espreguiçava-se acordado pelo som de chocalhos, balidos e berros. Uma brisa muito suave, perfumada pelas agulhas dos pinheiros, beijava o rosto, corado pelo esforço da subida, de Maria do Céu. Não ousava olhar para trás. Lá em baixo, o alvo casario brilhava afundado em verde escuro.

Ainda com a respiração opressa e de cesta na cabeça, arregalou os olhos perante a imensidão que a espantava. Montes e mais montes, vales e mais vales abraçados por um horizonte sem fim!

Soltou-se-lhe, da voz embargada, a pergunta:

_ António! Então ainda há mais mundo?

O espanto mirrou lentamente e deu lugar a uma mágoa tão sentida que lhe caiu dos olhos e se despenhou pelas escarpas da serra.

Abel Dias Ferreira

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