2003-11-27

MELANCOLIA FORENSE

Ontem, injustamente - por causa do magnífico sol de inverno- , estive melancólico. Devia ter-vos escrito este mesmo texto ontem.
Ou talvez não.
Hoje não estou melancólico, estou com o mesmo alento que me transcende quase todos os dias do ano.

Ontem pensava, na mais rigorosa solidão, que direito teria eu de querer a toda a força ser advogado neste país, e recusar empregos em grandes empresas. Que direito teria eu, perante a minha mulher e o meu filho, de recusar um rendimento provavelmente dez vezes superior ao que consigo retirar desta profissão que escolhi, e que gostava de exercer até descer sete palmos. E talvez depois, nunca se sabe.

Uma coisa é certa: a toga sai-me do corpo para a madeira do meu caixão, e daí para o corpo do meu filho, seja ele advogado ou não.

E, por favor, não vejam estas palavras como a negra tradução de uma lágrima endógena, mas como a perene convicção de uma sorriso transversal.

Não há aqui consolo possível que me possam dar, porque não há nada para consolar.

Sou objectivamente feliz na opção que fiz, embora leve pela vida o meu corpo em carne viva, e me doa de forma intensa cada vez que a honra dos advogados é atacada, seja no parlatório da nação, seja na mesa do café, seja ainda pelos mascarados de toga, neste permanente carnaval que a nossa classe vem vivendo há uns bons anos.

Sim, porque se há algo que eu não vi em nenhuma Assembleia de Advogados, foi um rasgo de crítica lúcida aos caminhos da própria classe, ao feitio maioritário que se impõe no subconsciente de cada advogado, mascarado ou não.

Vejo gritos de revolta tão cínicos, que me contorço de desgosto sobre o meu próprio tecido.

Não sendo este um texto de exemplos, depois de ouvir muitos colegas falar, sob aplausos, dos escândalos do suporte digital, atirando sempre as culpas para o lado de lá, gostava que tivesse dito o que tantas vezes digo a colegas: tendo a lei do suporte digital facultativo quase quatro anos (quatro anos!), estou profundamente convicto de que 99% dos advogados (ainda assim salvam-se 200) só fez alguma coisa por isso neste ano de 2003! É certo que a reforma legislativa de Setembro foi desastrada e desastrosa (tanto, que me têm visto calado, pois considero que o amadorismo quebrou todas os limites que a minha sanidade mental permite suportar), mas choca-me esta aflição com o suporte digital.

Claro que, por se constatar que classe é assim, eu próprio acabo por votar favoravelmente que o suporte digital seja facultativo (digo-vos que apreciei a confusão do "é,não é", porque tem sido graças a ela que a maioria se tem mexido).

Agora, eu estou preocupado é alguns colegas mais antigos que, pura e simplesmente, não conseguem reagir a isto tudo - por vergonha da sua inadaptação- , como um ilustríssimo advogado, grande nome do Porto, que foi o caso que mais me chocou nestes oito anos a batalhar na área das tecnologias, e que, depois de me ir adiantando algumas desculpas no átrio do Tribunal de Gondomar, me foi dizendo, com os olhos submersos em vergonha, mas com a voz colorida por uma dignidade tocante, que estava desesperado, que perdera as funcionárias por causa desse desespero, que a filha (auditora de justiça - outro golpe para o colega, por ter deixado o estágio de advocacia) estava longe, e que a máquina de escrever estava avariada, pelo que voltara a requerer e articular à mão há mais de um ano. No Porto, não em Bragança!

Recuso-me a aceitar e a acreditar que a advocacia está pior do que nunca. E, mesmo que assim fosse, quem melhor do que nós sabe que a vida de um advogado é feita de luta!

Lutemos, então! Não gargarejemos!

E nós, os mais novos, esta geração desprezada por não ter sentido o fel da ditadura, precisamos dessas lutas!

É verdade que é difícil lutar todos os dias pela classe nas trincheiras, com todo o tempo que isso toma, e, ainda assim, tentar sobreviver da própria advocacia.

Tenho dito a alguns colegas que me desgraço com essa luta, que um jovem advogado não pode perder tempo a lutar, pois precisa dele para sobreviver.

Mas sonho com o dia em que mais e mais colegas se queiram desgraçar assim, que eu não sou nada de especial (não é falsa modéstia, é verdade! A única coisa que eu realmente tenho de bom é o meu sorriso, que dura mais que a média dos sorrisos), e só com a força de mais mãos se consegue chegar a algum lado.

E agora, que a melancolia passou, e eu sei que a minha e mulher e o meu filho perceberão, um dia, porque não posso eu ir ganhar mil contos num trabalho subordinado (sem desprimor para quem o faz!),

Vamos aos trabalho!

Pela Toga,

Pedro Guilherme-Moreira

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