2003-11-03

MATAR E MORRER

Tinha, até esse dia, a sorte de nunca ter tido alma chegada internada num lar de idosos. A partir desse dia, passeio na vida com a culpa dos pobres, a culpa dos que sentem a responsabilidade do mundo sobre os seus ombros. Sentem e têm. Deixam-nos ter. Convém-nos que a tenham.

Apenas dois momentos de dignidade colectiva naquelas doze pessoas, depositadas sob mantas ao canto dos sofás: quando eu dei as boas tardes da chegada, e quando eu dei as boas tardes da partida.
Passam assim os dias, as horas, os minutos, os segundos.

O ambiente era denso, negro, e tinha peso. Via-o pelo meu filho de quatro anos, que, sendo hospedeiro de uma simpática colónia de bichos carpinteiros, ficou gelado todo o tempo que permanecemos naquele depósito de sons e imagens de agonia.

Mas hei-de lá levá-lo sempre, uma e outra vez.

Em todos, vê-se que esperam a morte para já, vê-se que esperam deles apenas isso, vê-se que os tratam como quase-mortos, com estalidos de língua marca não-há-mais-nada-a-fazer.

Ninguém nunca mo disse, mas eu sempre li as estatísticas da esperança de vida descontando pelo menos 10 anos ao declarado.

São 10 prováveis anos (para quem não tiver a sorte de se poder agarrar à lucidez e resguardar a autonomia física) em que o nosso ser, neste desgraçado país, ao invés de morrer, se derrete a um canto onde nem sombras há, pois que é de noite e não há luz para o contraponto. Nem haverá.

Os olhos da minha avó contêm a sua imagem de há cinquenta anos agarrada a uma corda com vigor, enquanto o corpo se desmorona em volta. As palavras demoram a chegar-lhe aos lábios, tudo se processa com mais lentidão. Está velhinha, tem quase 90 anos, mas, como todos sem excepção naquela sala, liberta uma luz fina do olhar onde se pode ler "Eu ainda estou aqui. Eu ainda sou eu." Há apenas que ter paciência, uma paciência terna, há que saber esperar pelos nossos velhinhos.

A rotina, os procedimentos, as fatalidades e as doenças de cada um, as empregadas sem qualificação, tudo e mais alguma coisa ergue uma cortina de trevas que empurra aquelas doze pessoas para o chão.
Para quem não quiser olhá-las nos olhos, elas serão concerteza pedaços de carne inútil que se arrastam no mundo. Para quem o fizer com atenção, verá a espiral que conduz ao seu passado, verá os alicerces daquilo que ainda são, e não do que foram, que a morte ainda não passou por ali. Para quem não tiver medo de lhes tocar, de lhes pousar a mão sobre a face, e mesmo em silêncio lhes transmitir o obrigado do mundo que está de pé por causa delas, que o faça.
O mundo descobriu agora o que são crianças, mas ainda não descobriu os seus pais imediatos, aqueles a quem chama velhos. E não é a cultura do lar que está em causa, porque em casa pode passar-se o mesmo.
Sem uma actividade, sem um apoio, sem um ombro mais suave, o seu dia a dia transforma-se num rio lento e gelado onde apetece cair.
A Dª Rosa queria-me vender uma bonita tapada que não sabe que já não tem. E eu, estando comprador, quis ouvir a Dª Rosa descrever a tapada.
O Sr.Hermínio, com uma expressão poderosa, chegou-se a mim, olhou-me nos olhos, estendeu-me a mão e apertou a minha com vigor. Demorou-se. E eu percebi. Ele já não falava, mas era o Hermínio marceneiro.
A avó Glória, a grande mulher responsável por uma empresa que geriu com coragem, viúva de um grande amor desde muito nova, quis que eu soubesse da sua indignação por lhe ter sido retirado o papel de repartidora das regueifas que uma neta lhe deixara na véspera. E que lhe tocara um naco ridículo, quando o petisco era todo seu, por direito.
A Dª Ana tomou cinco minutos para levar a chávena à boca, cinco minutos para a pousar, cinco minutos para tirar um lenço da saia, e cinco minutos para se assoar. Mas, caramba, fez isso tudo, não pediu a ninguém.
A "rebiti" Dª Manuela não tem saúde mental, mas é danada do físico. Oitenta anos, e não parou um segundo: Dançou, comeu uma flor, varreu o pátio todo. Pareceu-me, ironia, a única feliz.
A Dª Madalena queria enganar o interlocutor com a aparência de lucidez. Por isso, falava sem parar, ainda assim parca em ideias repetidas e sem-sentido. Mas, nas poucas que o eram, era bom embarcar sem-sentido e era bom ouvir ideias repetidas - e eram repetidas porque lhe diziam demais: o filho era major no quartel, o filho era major no quartel, o filho era major no quartel. Ai daquele que lhe vá dizer: "o meu é general!"

E muitos outros foram espreitando do seu canto, habituados a ser ignorados.Só a resposta às boas-tardes é vigorosa. E lá estarão eles, os velhos, para dar mais respostas vigorosas, como se tivessem muito medo de fazer as perguntas.
Pode vir algum vento que lhes diga velho, ninguém está interessado em ouvir-te, velho tu já não importas.
Velho, morre.
Morre, velho!


PEDRO GUILHERME-MOREIRA

3 comentários:

Alexandra A. disse...

Pedro, parabéns por este texto. Muito, muito bom.
E tão verdadeiro que arrepia.
Tenho uma avó que fez, no dia 4 de Novembro, 95 anos, com quem almoço, em sua casa, todas as 5ªs feiras. Vive com a irmã de 97 anos, com apoio domiciliário. Mas está em casa dela, é ouvida e amada. Só assim faz sentido viver uma vida.

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado. Pensar que escrevi isto há sete anos e nada mudou...

Carlos disse...

Aos poucos (na verdade até rápido em contrapartida ao tempo de que disponho) vou conhecendo seus textos. De alguns gosto mais, de outros, nem tanto. Mas este, talvez por ser um "tapa na cara", misturou-se às ideias que já carregava aqui comigo e complementou a "surra diária" a qual submeto-me na tentativa de aprender mais e mais sobre nossa existência. Obrigado!