2003-11-27

CARA OU COROA

Li há dias um artigo de revista, no qual, analisando o comportamento das crianças, em especial das introvertidas, se entendia que estas são mais susceptíveis a dar largas à sua imaginação, criando um mundo próprio que reservam só para si e no qual se refugiam.
Imaginam assim personagens com nome e características próprias, com as quais dialogam e com quem podem até viver grandes aventuras.
Tal fez-me criar analogias com o meu próprio comportamento enquanto criança, bem como com o meu irmão Nuno e o meu filho Luis. Ao primeiro surpreendia-o muitas vezes a lutar em frente ao espelho, imaginando-se super-herói; ao segundo ainda hoje o vejo a jogar "caricas" imaginando os maiores e melhores jogos do campeonato de futebol.
Parece-me necessária esta atitude, como forma de sublimação das nossas tendências artísticas, sentimentais e até agressivas.
Lembro-me que, entre os oito e os dez anos, quando estava interno no colégio e no qual naturalmente sentia a falta de comunicação com a família, tendo que resolver os meus pequenos problemas sozinho, dei-me a falar solitário com uma das frondosas árvores de tília que povoavam o nosso recreio.
Passei assim a consultÁ-la nos mais variados assuntos, bem como até em vaticínios sobre o meu futuro.
Claro que não obtinha qualquer resposta, mas sentia um certo desabafo interior ao fazê-lo, tal como se conversasse com um pai (que já não tinha), ou com mãe amiga, que me acariciaria e aconselharia pelo melhor.
Um pouco independente, por volta dos meus quinze anos, tendo já há muito saído do colégio e trabalhando, lembro-me que, quando tinha que decidir um assunto, nem que fosse escolher este ou aquele filme, ir por esta ou por aquela rua, utilizava o método que apelidei de "cara ou coroa".
Escolhia uma das faces de uma moeda - normalmente de cinco tostões - na altura de cor branca, com uma face em que aparecia a "cara" da República e na outra o Escudo português "coroa" e lançava-a ao ar apanhando-a na mão. Saía cara ou coroa claro, mas independentemente do que mostrava, eu optava pelo que efectivamente o meu subconsciente desejava.
A moeda tornava-se na catalisadora do meu querer e qualquer que fosse o resultado indicava-me indirectamente qual o caminho a seguir.
No meu íntimo eu já tinha uma escolha... a moeda obrigava-me a decidir.
A.M. Dias Carvalho

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