2003-10-28

A MÚSICA EM VERSO BRANCO

De olhos fechados,

eventualmente com as mãos sobre os olhos fechados,

eventualmente com os lábios cerrados sob as mãos sobre os olhos fechados,


murmura-se primeiro a clave de sol, que, de suspensa no ar,

passa a cair imitando a folha caduca do plátano,


e cola-se suavemente à pele,

junto ao pulso esquerdo,

permanecendo visível a quem passe na alameda


a mesma alameda de plátanos das nossas infâncias,

que tinha o comboio a apitar nos cabelos

e o mar aos pés


Depois há uma lágrima trazido pelo arrepio da primeira nota.


A lágrima corre por debaixo do anelar da mão direita,

e depois lateraliza o nariz

e depois escala o lábio superior

e depois divide-se

e uma parte entra na boca e o sal alerta a língua,

e a outra parte contorna o lábio inferior,

vai caindo


e é junto ao queixo que o músico a tenta limpar

com a parte do pulso esquerdo que continha a clave de sol



e cai na pauta um dó



No fim dessa tarde de outono

tinha escrito a sinfonia


na pele


Soube-se que tal peça viria a integrar a sua própria carne.


e era altamente provável que, muitos anos mais tarde,

o músico do banco da alameda,


como quase todos os músicos do mundo,

não viesse a divulgar a sinfonia subcutânea,


e morresse lixeiro, como era,


como todos os que morrem o que parecem,


e afinal são músicos.



Pedro Guilherme-Moreira

2003/10/27

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