2003-10-17

A idade da inocência e o pecado.

Lembro-me, teria seis anos e pouco, de ter ouvido dizer que o pecado só existia a partir do entendimento.
Tinham também estabelecido os adultos que a idade do entendimento começava a partir dos sete anos, talvez porque naquela altura se dava entrada na escola primária, se começava a ir à catequese, e saíamos debaixo das saias da mãe.
Por aquela época, atormentava-me o facto de poder ter cometido um pecado, sei lá... uma bola furtada, o ter dito uma palavra feia, uma canelada dada a um amigo, uma festa mais prolongada numa colega - brincávamos aos curativos... eu tinha um casaco branco a fingir de médico que envergava para essas ocasiões, e numa delas entretive-me demorada e pacientemente a esfregar com sebo as pernas da vizinha Justa. No dia seguinte levei um puxão de orelhas, porque a mãe dela se veio queixar à minha: tinha tido um trabalhão para retirar a pomada das pernas da miúda.
Como sabia, aterrado, pela catequese, que se morresse de noite em pecado mortal, iria direitinho para o “fogo dos infernos”.
Teria assim urgentemente de me confessar, o que não me apetecia nem agradava.
Andava por isso preocupado e receoso e pensava, e tornava a pensar, aumentando a preocupação.
Até que me surgiu uma ideia salvadora.
Matreiro, perguntei à minha mãe uma coisa que eu já sabia:
" - Mãe, quando é que se atinge a idade do entendimento ?
- Aos sete anos ! " respondeu ela prontamente.
Não os tendo, não tinha entendimento...
Não tendo entendimento, era inocente!
Sendo inocente, não podia pecar...
Não tendo pecado, já não iria para o "inferno à arder".
Doce engano, saborosa falácia dos meus seis anos e pouco...

A.M. Dias Carvalho

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