2003-10-20

GANGS

Existem gangs em toda a parte.
Suponho que até na nossa alma, às vezes ígnea no crepitar de um para-sentimento.
Porque o sentimento ódio não pode existir.
Nem o dicionário o consegue definir, sem uma fraqueza poética:"Paixão que leva a desejar a desgraça de alguém;"

Depois de se ver "Gangs de Nova Iorque", de Martin Scorcese, e sem que esta seja uma crónica do filme, mas simplesmente a sequência do mesmo, tomado como mote de uma reflexão, ficamos com a certeza de que o ódio é um elemento histórico, que deveria ser pretérito neste ponto do globo, e desconhecido para cada homem bem-formado.

Mas, como acontece de cada vez que presenciamos os frutos do ódio, é terrível vê-lo percorrer o seu caminho no olhar de um ser humano.
Dir-se-ia, afinal, que outros animais não têm capacidade para partilhar tal aberração da natureza.

Desde o momento em que abrimos os olhos, agora para o dia nascente, antes para o mundo, é obrigatório ter um copo de lucidez junto à cabeceira.

Bebemos o conteúdo, lavamos com ele a cara, calmamente, e só depois nos vestimos e saimos à rua.

A cada passo de cada trilho de cada homem, a cada minudência de cada esquina da existência, devemos convocar o olhar límpido da manhã de lucidez.

Se assim todos fizéssemos, mais fácil seria perceber que o mundo, afinal, não está a ruir à nossa volta e que, bem pelo contrário, os homens se aproximam do seu centro de pureza, pé ante pé, até à vitória final.

Nunca como hoje houve tanta liberdade.
Nunca como hoje tanta gente reflectiu e opinou sobre cada pequena porcaria factual.

Após a convulsão dos que não sabem ser livres, ou dos que, sabendo-o, querem com isso rentabilizar a sua ganância, o homem ficará reduzido à simplicidade do seu olhar, na pressão global de cada um querer ser a melhor pessoa possível.

Há hoje gangs de submundos, por um lado (e este país ainda espera esse sinal da civilização, que é a tomada das cidades por essa treva), e há também há violentos gangs de ideias e sentimentos.

Está bom de ver que muitos de nós assumimos uma de duas posturas distintas, nas estradas modernas da respiração:

- ou baixamos os braços, em atitude de sobreviência, e vamos fazendo quilómetros, levando pancada aqui e ali, até à boca do caixão, onde se dirá que éramos bons homens;

- ou erguemos os punhos, prontos a socar tudo e todos, com a mera justificação de que a vida é uma cabala gigante de monstros prepotentes e poderosos;

Ainda que muitos de nós não se reconheçam numa ou noutra postura, a verdade é que todos poderemos caber, ou já ter cabido, nelas.

Contudo, o filho-da-mãe do chato que não deixa nenhum do seus amigos insultar um desconhecido, julgar sumariamente uma figura pública, violentar um interlocutor,

o filho-da-mãe do chato que não deixa passar cinismos pela peneira da sua alma branca, que se opõe a injustiças claras sobre terceiros, oferecendo o seu próprio corpo,

o filho-da-mãe do chato que dá todo o crédito ao seu próximo, abrindo-lhe as portas de si,

o filho-da-mãe do chato que tranca, a sete-chaves e nas traseiras do seu ser, os preconceitos, os clubismos desportivos e políticos, as ideias estanques, as certezas absolutas, as opiniões eternas sobre algo ou alguém,


esse filho-da-mãe que, num primeiro momento, pode criar a convulsão dos instalados, há-de, a longo prazo, dominar o mundo.

Nesse dia, o poder será um cavalo a descansar à sombra de uma árvore, e só será montado em nome de todos.

Não se diz, em fim de crónica, que este é o utópico caminho para a perfeição da humanidade. Nem que a profunda inocência destas palavras são a solução dos males da esfera de pó em que vivemos.

Ao Guerreiro transparente, porque luta sem interesse e em nome de todos, hão-de sempre chamá-lo de pobre inocente inadaptado.
O que ele, na sua luta, absorve, com naturalidade, como tempo de antena. Como fabulosa propaganda do contra-pé (e contra o pé).

Diz-se apenas que,

se cada um de nós beber pela manhã do copo de lucidez, se com ela lavar a cara e até a alma, sua e a dos outros,

se cada um de nós se oferecer para o contágio ao próximo por via da luta (porque o bondoso passivo só serve para lá estar, e não para o seu semelhante) silenciosa por pessoas melhores,

se cada um de nós, ao fim de anos de insistência na genuína bondade, conseguir dois companheiros que ostentem esse seu perfume,

podemos ser bons desastrados, matéria-prima dos ignóbeis,


Mas havemos de ter cercado os gangs, os mesmos que sangraram as entranhas do seu pretenso inimigo pela história, ou o estarão dispostos a fazer pelo futuro dela, a um reduto desesperado de maldade.

Houvesse só mais dois sorrisos puros ao meu lado no fim do caminho, e eu morreria feliz.

PEDRO GUILHERME-MOREIRA
20 de Outubro de 2003

Sem comentários: