2003-09-04

O QUE O FOGO FAZ - Relato de uma Viagem

(...) Esta semana fui convidado a ir a Malpica do Tejo. Para
quem não sabe onde fica, pensem em Castelo Branco. Agora tornem cerca de 20
Km para o lado de Espanha. No mapa é bem capaz de ficar em cima do risco que
divide os dois países. Aí está Malpica do Tejo!


Em Malpica do Tejo, apesar de ser Distrito de Castelo Branco, não existia
nenhum incêndio! Aquela é uma terra calma, de um casario imaculadamente
branco, estradas empedradas e de paralelo, onde os "velhotes" ainda andam na
carroça para ir à sua horta que fica a uma hora de caminho com o burro a
puxar... Ali conhece-se o sossego. Temos tempo para contar as estrelas do
céu. Enfim... um local de sonho para quem gosta de sossego. Não há nada para
ali fazer que não seja... fazer nada.

Fogo, já o disse não existia ali. No caminho que fiz (fui de Alverca pela A1
até Abrantes e depois pelo IP2 tentei ir até Castelo Branco) fiquei a
conhecer pelos meus olhos a desgraça que assolou o País. Não precisei de
mais de 20/25Km pelo IP2 dentro para ver que o "barbeiro" ali tinha passado.
Tudo negro. Aquilo que há um mês (quando lá havia passado pela última vez)
era uma paisagem que se começava a amarelecer com o calor do sol... Enfim...
já estava ardido nada a fazer! Desejei que o resto do caminho assim não
estivesse. Errei! O caminho estava todo assim!!!! Golegã, Constância, Gavião
e por aí diante estava tudo em chamas, tudo ardido! O fumo no ar não deixava
que eu visse para além de 1Km na linha do horizonte. Depois... bem depois
era um nevoeiro denso, um fumo negro como nunca havia visto!

Chego ao Fratel e... IP2 cortado ao trânsito. Andavam por lá os soldados da
paz atrás do "barbeiro malvado". Nem valerá a pena dizer-vos que a nuvem de
fumo que me dava, há uns quilómetros, alguma visibilidade era ali de uma
densidade que não me deixava mais de 500 metros para a frente com
visibilidade aceitável! Na estrada funcionários da SCUTVIAS e elementos da
BT indicavam os caminhos alternativos. Pareciam ET´s com aquelas máscaras
brancas...

Segui o caminho alternativo que me indicaram. Já com algum ardor nos olhos e
secura na garganta, confesso.

O meu carrito não é novo e eu não troquei o ar condicionado pelos piscas.
Preferi os piscas. Por isso, com calor tenho de andar com janelas abertas. O
que, bem estão a ver, me dificultou a viagem. Era escolher entre calor e um
fumo dissimulado dentro do carro ou uma janela aberta e um ar queimado a
circular. Viesse o diabo que eu já estava por tudo. Abria a janela, fechava,
abria... e só me lembrava da àgua que a minha mãe me ofereceu para levar e
eu havia recusado. Que jeito ela dava naquela hora.

Lá sigo eu, por estradas de curva e contra curva a caminho de Nisa!!! O fumo
no ar continuava e densificava-se a cada quilómetro. Chego a Nisa e, com
muita tristeza, vejo as pessoas da terra do bom queijo ( e não só...) como
tinha visto a BT há muitos quilómetros atrás: de máscara. Compreendi,
aceitei e ficava furioso! Mas continuei caminho em direcção a Vila Velha de
Ródão! Tudo igual. Muitas curvas, muito fumo, muito trânsito, muita revolta
pelo que via. O fogo esteve ali!

Passei em cima do Rio Tejo. No meio umas ilhotas tinham daquela vegetação
espigada. Até aí, no meio do Rio estava a arder!!!!!!!!! Triste, muito
triste.

Entretanto chega Vila Velha de Ródão passo e mais adiante... seta a indicar
Perais. Estava na minha hora de fugir do meio daquela desgraça. Andei,
andei, andei. Talvez 20 Km. Um pouco mais não será exagero. Não vislumbrava
fogo para onde quer que olhasse. Mas o fumo perseguia-me. Muito fumo!
Passo Perais, Alfrívida e Lentiscais (quando quiserem comer umas migas de
peixe do rio inigualáveis lembrem-se dos Lentiscais, num restaurante
familiar onde só se come disto e tem de se marcar primeiro!!!). Talvez
30/35Km depois de ter saído de perto do fogo. O fumo continua a
perseguir-me. Malpica não estava longe! mais 5 Km e era meu aquele cantinho
de sossego!

Cheguei!!!!!!!! Infelizmente trouxe o fumo comigo. Posso arriscar que num
raio de 30 a 40 Km não havia fogo (nem tão pouco teria existido fogo nos
últimos dias ali nas redondezas). Mas o fumo fazia pensar o contrário. Era
tanto e tão denso que não haviam estrelas no céu. Ou melhor elas estavam
lá... nós é que não as víamos! Os velhotes da terra aflitos. Uns com
dificuldade para respirar, outros com máscara e indecisos entre continuar a
cumprir o velho hábito de se sentarem junto à porta de sua casa a trocar
palavras que o vento nunca há-de levar com o vizinho da frente ou
fecharem-se dentro de uma casa fustigada pelo calor que se fazia sentir.

O fogo... o fogo mexeu com Malpica meus senhores! O fogo mexeu com uma terra
longe de tudo mas tão perto do sossego. O fogo mexeu com os hábitos daquela
gente. O fogo desassossegou uma terra que nunca havia conhecido a exaltação.
O fogo... o maldito fogo!
Para que vejam o quanto Malpica mudou nestes dias posso dizer que lá estive
três dias. Três dias em que deu para que o meu carro, junto às escovas do
pára-brisas, acumulasse cinza!!! Cinza de um fogo que não era dali, mas que
ameaçava aquela gente pelo cheiro do seu fumo! A festa da terra não teve
fogo de artifício. Não teve muita gente. Que desolação. Quem é chegado a
Malpica sabe a devoção que as pessoas têm ao Santo da Terra. O "A Santa
(N.S. das Neves) não foi honrada" dizia um velhote olhando para a nudez de
uma festa que prometia.

O fogo trouxe tristeza a Malpica.Tirou-lhe as estrelas, o céu!

Estou triste porque vi o fogo, vi Malpica triste e desassossegada!
Solidário com quem sofre com ele.
Admiro e respeito quem o combate.

LUÍS MIGUEL JESUS, 2003-08-08

Sem comentários: