2003-09-16

Historias de Sá Mucondo- o leão, o sol e a chuva

Sá-Mucondo vinha caminhando pelo mato. Seguia um estreito carreiro calcado no capim. A época das chuvas já lá ia e o mato estava agora seco. Fazia tempo que não chovia.

Ao longe viu um leão. Se calhar não se devia aproximar dos leões. Mas aquele leão era diferente. Tinha uma juba ruiva. E um sorriso tranquilo. O leão estava sentado à beira do rio.

Sá-Mucondo aproximou-se.
- Olá amigo leão - disse.
O leão ficou admirado com a presença de Sá-Mucondo. Mas respondeu, com um sorriso:
- Olá ! Quem és tu ?
- Sou o Sá-Mucondo. Um contador de histórias.
- E o que fazes por aqui ? - perguntou o leão ao Sá-Mucondo.
- Vinha a passar. Vi-te à beira rio. Vim dizer-te olá.
O leão sorriu para o Sá-Mucondo. Não era normal os leões sorrirem. Muito menos a contadores de histórias. Os leões eram caçadores. Vigorosos. Cheios de vida. Mas aquele leão parecia diferente. Tinha um sorriso.

Ficaram, depois, os dois um bocado à conversa. Falaram do sol. E da chuva. O Sá-Mucondo contava histórias. E o leão ouvia. Quando a noite começou a cair Sá-Mucondo despediu-se do leão.

- Adeus amigo leão.
- Adeus Sá-Mucondo.
Sá-Mucondo voltou ao carreiro calcado no capim. E seguiu o seu caminho.
No dia seguinte Sá-Mucondo voltou à beira do rio. E lá encontrou o leão.
- Olá amigo leão - disse.
E o leão respondeu-lhe com um sorriso: - Olá Sá-Mucondo.
E ficaram ali à conversa. Falaram do sol. E da chuva. O Sá-Mucondo contava histórias. E o leão ouvia.
Nos dias seguintes Sá-Mucondo voltou a passar por ali. Não lhe ficava em caminho. Mas foi-se habituando. Seguia o estreito carreiro, calcado no capim. E, quando chegava à beira do rio encontrava o leão. E ficavam a conversar. Sobre o sol. E a chuva. O Sá-Mucondo contava histórias. E o leão ouvia.

Sá-Mucondo foi sentindo uma estranha necessidade de estar com o leão. De com ele conversar. Sobre o sol. E a chuva. De contar histórias. E de sentir que o leão ouvia. Por isso todos os dias seguia o estreito carreiro, calcado no capim. Até à beira rio. Esperando encontrar o leão. Para lhe contar histórias. E ele ouvir.

Até que um dia, quando chegou à beira rio, Sá-Mucondo não viu o amigo leão. Ficou triste. O que havia agora de fazer ? Gostava de estar com o leão. De com ele conversar. Sobre o sol. E a chuva. De contar histórias. E sentir que o leão ouvia.

Mas o leão fora caçar. Sá-Mucondo esquecera-se que os leões têm de caçar. Que gostam de ficar sentados à beira rio. De ouvir histórias. Mas têm de caçar. E por isso não podem estar sempre à espera. Para conversar. Sobre o sol. E a chuva. E ouvir histórias.

Sá-Mucondo olhou para o rio. E ficou ali a vê-lo correr. Foi então que reparou na imagem que se reflectia nas águas límpidas. Era a sua imagem. E percebeu como era diferente. Não era um leão. Vigoroso. Cheio de vida. Era um Sá-Mucondo. Um contador de histórias... Das suas histórias. Que só ele entendia. E que só ele imaginava. Por isso também imaginara que o leão sentia a mesma necessidade. De conversar sobre o sol. E a chuva. E de ouvir as suas histórias. Era isso. Tinha criado uma história. A história do leão que gostava de ouvir o Sá-Mucondo. Só podia ser uma história que ele tinha imaginado... O leão era um caçador. Vigoroso. Cheio de vida. E ele, um contador de histórias...



Nuno Albuquerque

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