2003-09-29

ADAPTATION

O (bom) cinema é assim: suavemente, pode podar a nossa percepção do cerne das coisas. Que renasce mutante.

Não é meu costume oferecer flores por causa do que quer que seja.
Ofereço flores porque sim.
Gosto, aliás, de dar porque sim.
O "porque sim" é a minha filosofia contra o mercantilismo das emoções.

Não gosto de comprar flores.
Mas gosto de ver o sorriso na transparência da pétala.

A minha indiferença em relação às flores mudou, contudo, desde que vi o "Adaptation", do Spike Jonze.
A forma como ele filma, num primeiro olhar (não num último, em que se pretende banalizar a flor aos olhos de Sursan/Meryl Streep), a orquídea-fantasma, conjuntamente com a explicação científica da capacidade de adaptação das flores e dos insectos uns aos outros (as orquídeas assumem normalmente a forma do insecto que as poloniza), é de nos atirar por terra.

Tenho, pois, de agradecer ao Spike o nascimento das flores no meu regaço.

Nicholas Cage, o desalinhado do clã Coppola, é para lá de soberbo (anda aí a Sofia a ser soberba atrás da câmara, também:).

Mas isso levar-me-ia a uma dissertação sobre os óscares que não pretendo agora.

Fica o sorriso amarelo pelo título em português ("Inadaptado"), redutor , como de costume, e até "muito mentiroso".

Pedro Guilherme-Moreira

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