2003-08-05

DOMINGO FILHO DA PUTA

Desculpem-me os mais sensíveis, mas considero esta a única tradução possível para o "Bloody Sunday" ocorrido em Londonderry, na Irlanda do Norte, no dia 30 de Janeiro de 1972 (um dia com um outro especial significado para mim...).

Nenhum Irlandês sentiria este "Bloody" como apenas "sangrento".

Bendito o ultra-realista filme de Paul Greengrass, vencedor do Urso de Ouro de Berlim em 2002, que nos mergulha de forma notável no coração da tragédia.
É o filme definitivo sobre este horrendo Domingo*.

Bendito o desempenho brilhante de todos os actores, de onde se destaca, naturalmente, o protagonista, James Nesbitt (quem diz que um actor de televisão não é actor?), que recria a figura de Ivan Cooper, o parlamentar activista dos Direitos Civis que liderou a manifestação pacífica, e ficou com a mágoa perene de ter levado os seus pares, pela mão, ao muro de fuzilamento.
Este homem, ainda vivo (dizem que é a personificação da bondade) é contra os mártires: ele pensa que se deve "viver" pela Irlanda, e não morrer por ela.

Bendita a fotografia de Ivan Strasburg, que literalmente nos transporta para as ruas de Derry.

É bom que nunca se esqueça este dia, como nunca se esquece cada dia de cada genocídio.
Certamente não o digo pelos 13 mortos (até hoje morreram cerca de 3000 pessoas no conflito), mas pelo facto de, nesse dia, ter sucumbido a paz real, que deu lugar à utopia da paz. Até hoje.

Como disse "Ivan Cooper", em forte comoção, na conferência de imprensa que se seguiu à chacina:
"Esta Noite, o Governo inglês deu a maior vitória ao IRA. Esta noite, centenas de jovens vão pegar em armas pela primeira vez."

De reflectir é que nenhum dos responsáveis pela "execução" de 13 pessoas (a maioria das quais menores) tenha algum dia sido punido, judicial ou disciplinarmente, pelos actos praticados.

Como disse o professor de história da Universidade do Ulster, Paul Arthur, ocorreram duas agressões nesse dia: as execuções propriamente ditas, e a ofensa à dignidade do povo irlandês, pelo encobrimento às acções do exército britânico.

Que eu saiba, nunca o Governo Inglês pediu desculpa pelo que o seu exército fez.

É revoltante e assustador que tal se tenha passado num dos países pretensamente mais civilizados do mundo.

Permanece pendente o "inquérito Saville", iniciado em 1998, em que vão ser entrevistadas mais de 280 testemunhas do exército. Do outro lado, há 20.000 testemunhas. (não nos faz lembrar alguns inquéritos cá da pátria?)

Será inútil explicar-vos porque considero este filme, mais que sublime, obrigatório, principalmente para os mais jovens. Obrigatório para que nunca possam ser esquecidos dias como esse 30 de Janeiro de 1972.
Mais que explicá-lo, há que ver o filme.

A outro nível, mas curiosamente sobre factos ocorridos no mesmo país, também é obrigatório o filme de Peter Mullan, "As irmãs de Maria Madalena", uma instituição religiosa que, nos nossos dias (foi encerrado o último "convento" em 1996), perpetrava punições à base de violência física e psicológica sobre raparigas menores cujo único crime, por vezes, eram serem bonitas.
Estas, coitadas, tiveram muitos "Domingos Filhos da Puta", alguns dos quais as levariam à morte, outros à loucura e outros ainda à eterna menoridade mental e sentimental.

O filme Bloody Sunday, ganhou o Festival de Berlim, o Sundance Festival, recebeu uma "standing ovation" em Nova Iorque (apesar da alegada campanha de desinformação do governo britânico, através da sua embaixada), recebeu o Audience Award de 2002, etc, etc.

Mais, foi patrocinado pela Granada Television (inglesíssima, com sede em Londres) e pelo próprio governo britânico, através do British Film Council.

O realizador, Peter Greengrass, é inglês, e não irlandês.

Sem demagogias ou falsos apelos, por favor vinguem-se no cinema para aclarar a consciência.

Pedro Guilherme-Moreira, 2003-08-05



*o "Sunday Bloody Sunday", de Schlesinger, é de 1971 e, podendo ser encarado, pelos mais supersticiosos, como um prenúncio, nada tem a ver, como é óbvio, com os acontecimentos de 30 de Janeiro de 1972.

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