2003-07-03

KATHARINE

Até Tom Hanks, injustamente (por "Philadelphia"-1994, não por "Forrest Gump"-1995), o ter igualado no trono estatístico dos Óscares (Melhor Actor em 1938, por "Captains Courageous", e em 1939 por "Boys Town"), Spencer Tracy planava no éter como um dos poucos exemplos de genuíno bom gosto da Academia. De facto, era notável que, nos anos 30 do Século passado, um actor pudesse transcender-se assim.
Nunca mais lhe deram um Óscar.

Katharine dizia que ele lidava tão mal com a vida, quanto bem com a sua arte.
Lia os guiões de uma só vez, actuava, e nunca discutia os seus papéis.
Pela sua natureza,nunca vimos desenhado na voz de Spencer Tracy o brilho de Katharine, ela própria. Vimos no ecrán, sem pudor, e contudo com discrição, o amor de ambos.
Katharine nunca mais amou a nenhum homem como a Spencer.
Spencer era casado com outra, uma mulher que não quis nunca deixar de ser a Senhora Tracy.
Katharine nunca foi a Senhora Tracy.
Foi a senhora Spencer.

Um Amor que durou 27 anos, porque ele morreu.
Perdão, um amor que durou 76 anos, porque só agora Katharine se lhe juntou.
E até por isso, talvez ainda dure, algures, na nuvem ocidental do nosso crer.

Katharine abanava a cabeça involuntariamente, um tique hereditário (não degenerativo), e foi com esta limitação que ainda nos conseguiu deslumbrar na inesquecível primeira aparição ao lado de Henry Fonda. Acreditam que estes dois vultos do cinema apenas se conheceram na rodagem?
O filme era a "Casa do Lago/On Golden Pound"-1982,Oscar para ambos - o primeiro para Fonda (que foi merecidíssimo, apesar de ter servido também como prémio de carreira, e o quarto e último para Katharine, que se iniciara em 1934 (!), há 69 anos (!), com "Morning Glory").
Como Spencer, bem mais velho que ela, Katharine brilhava pela naturalidade que imprimia às suas personagens - algo impensável nos anos 30, mas que atravessou todo um século.

Não se pode dizer que era uma grande senhora, só porque morreu.
Pode dizer-se isso, porque se viu nos olhos dela a grandeza leve da verdadeira sabedoria. Eu vi. Tinha ela 86 anos.
Dez anos depois, com a mesma serenidade, pé ante pé, sorrindo por certo, foi ter com Spencer, beijou-o ao de leve, e disse:
- Estava a ver que não...

PEDRO GUILHERME-MOREIRA, 2003-07-03

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