2003-12-29

DEVIA TER MORRIDO MAIS UM

Nota Prévia: A história que se segue é insuportável, mas real, e apenas me chegou, como a todos, em branco. O que passo a fazer, tenho de fazer. Por egoísmo, confesso.

"Cansada, Maria decide dobrar o seu dia.
É madrugada.

Faz a ronda por três dos cantos do quarto, e afaga a cabeça de cada um dos seus nove filhos, sentindo-lhes a respiração profunda e ofegante. Dormem.

Depois arrasta-se para o seu canto.
Tem alguma urgência em deitar-se, fechar os olhos, adormecer, render o corpo.
Sabe que vai amanhecer em breve, e isso perturba-a.

Não se inquieta. Beija a fonte esquerda de Moahammad, cala-lhe os gemidos sonolentos com uma mão doce sobre os lábios, e murmura:

"Vai acordando. São quase horas da oração."

Moahammad dá graças a Deus. Prefere mil vezes aquele despertar mulher, bússola da sua existência, à violência contida da primeira luz da manhã.

Moahammad toma para si uns minutos. Sorri, fixando na penumbra o seu amor por Maria, dedilhando os contornos do seu rosto. E mareja os olhos quando se deixa ouvir a respiração de cada filho.

Nesse segundo, sabe que nunca será pobre.

Levanta-se lentamente, preguiçando.
Põe sobre os ombros a manta do costume, e sai para o pátio da casa.
Vira-se para Meca, e começa.

Está frio, muito frio, mas Moahammad está ainda a escaldar no seu sorriso feliz.

Logo de seguida, a terra abre.
E fecha.
E comprime.
E treme.

O dia a nascer e a escurecer de vez?

Quando, não sabe, mas sabe que muito depois, com o corpo a doer, Moahammad abre os olhos a custo.
Está coberto de entulho.
Nas primeiras horas, não se pode mexer.

Fica envergonhado quando, só ao fim de dez horas a mover centímetros do seu corpo, tentando sobreviver, emergindo do entulho, se lembra que a sua família pode ter tido outra sorte.

Abre espaço para que a sua primeira lágrima se enlameie. E o seu desespero começa quando se levanta, e vê que sobreviveu ao terramoto.

Maria consegue ouvir os gritos desesperados do marido, mas, do pouco que sente, tem uma vaga noção de que nunca vai conseguir gemer sequer.
Sabe que vai morrer, e sabe que vai ser em breve, com a dor suprema em si.
Podia não ter ouvido, mas ouviu.
Ouviu Moahammad gritar, um por um, o nome dos seus nove filhos e filhas.
E sabia o que isso queria dizer.

Maria ainda conseguiu pensar um porquê. De Raiva.
Mas nem sequer chorou.

O maior temor de um pai estava ali, debaixo do outro monte de escombros. Conta-se que tudo foi rápido, que ninguém sofreu. Espera-se sempre.

Nós, os vivos, é que não suportámos o contrário.

Josef crava as mãos nos ombros de Moahammad, depois envolve-lhe as faces com a mais violenta ternura.
Os dois homens olham-se de negro e no negro de cada um.

Sumindo-se a voz, percebe-se de Josef:
- ...dizem que podem ser mais de cinquenta mil...

Mohammad volta a sentar-se sobre os escombros, onde está há dias a gritar sem dormir, e usa as suas mãos geladas para alçar duas pedras, que tenta esmagar uma contra outra, cerrando os dentes.

Com as maçãs do rosto esfoladas do frio e do sal das lágrimas, faz correr mais uma, lenta, grossa, infinita:

- Devia ter morrido mais um.



Pedro Guilherme-Moreira
29 de Dezembro de 2003

P.S.: Não sei fazê-lo de outra forma, mas não conseguia ficar calado. Nenhum de nós pode suportar ou conceber o que se passa em Bam. E se a história, real, que acabei de colorir por necessidade, é já em si insuportável, o que será milhares de histórias iguais? O incrível é que, se o horror das Twin Towers se prolongou em meses de solidariedade, este, que, não se podendo realmente medir, pode ser, aritmeticamente, dez vezes pior, vai ser esquecido em poucos dias. Vai uma aposta?
Perante isto, não há mesmo paciência para aturar os cínicos do dia-a-dia. Que até a bondade intrínseca conseguem agoirar. Perante isto, raios me partam a mim, se não hei-de mudar a minha partícula do mundo.

2003-12-22

ODIAR EM PAZ – Auschwitz, o Humor e a nossa estrada de guerra

Ann, perdida no minimalismo cinzento da paisagem de Auschwitz-Birkenau, enquanto a mãe e uma amiga discutem a raiz do mal, concluindo que os seus carrascos actuavam por puro ódio, pergunta, do alto dos seus puros catorze anos:

- E não se pode odiar em paz?


Ann fora uma rara sobrevivente de um gaseamento, por, no meio da horrenda confusão de uma sessão de morte num desses “chuveiros comunitários nazis”, ter ficado com a sua cara semi-submersa numa poça de água no chão (água que impediu a asifixia).

Morreu depois, de Tifo, dois dias antes da libertação do campo pelos russos.

Não sendo a personagem uma pura ficção, excepto no nome, esta interrogação deriva de uma profunda reflexão de Pascal Croci, autor da única Banda Desenhada da história a retratar o genocídio do povo judeu, especificamente, aqui, dos judeus polaco: chama-se, de forma crua, exactamente “Auschwitz”, e foi dada à estampa em 2002.

Estranho: Quase sessenta anos se passaram. Como é possível que nenhum autor de B.D. tenha antes tentado desenhar o horror dos campos de extermínio?

Não é sobre o sucedido em Auschwitz, contudo, que vos quero falar.

É apenas de mais um dia que vai cavalgando pelas horas fora com a nossa vida sentada na sela.

Ontem, entre as banalidades que fazem de mim um homem feliz, dois rios de reflexão me banharam as faces: um sobre o Humor, à volta de um estudo de Robert Provine, e outro sobre o Ódio, como referi acima.

Li com prazer as palavras de Frei Bento Domingues, falando sobre o humor de Deus e da Igreja, como li as palavras de alguns outros mediáticos, e, por isso, gente que conta.

Pela madrugada dentro, entreguei-me aos desenhos de Croci.

De manhã, após um sono repousado, ecoavam em mim as palavras de Ann:

- E não se pode odiar em paz?

E entre o siso de um ódio que não transcende o corpo, que não reclama a eliminação física do seu objecto, e o riso a que sempre me obrigo para tornar o mundo melhor, vejo desfilando imagens da viagem de Sábado, ao Natal de Pontevedra, em que, entre tanto e tão intenso prazer, apenas ressalta a fotografia mental de três carros portugueses, os únicos em quase 500 Km de passeio, a tentarem o suicídio e, simultaneamente, porque há outras faixas e outros carros, o homicídio de todos nós.

Penso na possibilidade de trazer Ann para dentro de cada português, para que ele perceba a natureza do seu mal. E que se convença de que, se tem mesmo de odiar o próximo, que o faça em paz, sem afronta física do objecto, que afinal não conhece, à excepção dos cilindros e da sua configuração, e da potência, talvez do binário.

E no fundo deste texto, que parece confuso, mas no fundo é um postal de Natal, seguem os desejos de que lembremos ao vergonhoso povo de asfalto que somos, que este ano que passou se calaram 1.500 almas em silêncio volante, e cerca de 9.000 estão amarradas entre lençóis de um síto público que cheira a formol - São, portanto, mais de 10.000 por ano a ficar marcadas, como cavalos, com o ferro do destino. E quatro a cinco vezes mais são os que sofrem, de dor em carne viva, pelo que sucedeu aos marcados.

Já vamos em 60.000 portugueses desgraçados num só ano. Paremos, então.

Ficam então os desejos em forma retórica e festas boas:

- Não se pode odiar em paz?
- Não se pode rir, rir sempre, além do cinzento global?

Pedro Guilherme-Moreira, 2003-12-22


2003-12-04

A LENDA DAS ROSAS

Pronto. Demorou, mas veio.

Eis a prometida letra do fado que me viu crescer, e que o meu pai cantava melhor que todos os homens do mundo. É a voz dele no vídeo abaixo.
Ouvi-o em cada momento da vida.
Exigi-o nos outros todos:))


"A LENDA DAS ROSAS

Na mesma campa nasceram

Duas roseiras a par,

Conforme o vento as movia

Iam-se as rosas beijar



Deu uma rosas vermelhas,

Desse vermelho que os sábios

Dizem ser da cor dos lábios,

Onde o amor põe cem ideias



Da outra, gentis parelhas

De rosas brancas vieram,

Só nisso diferentes eram,

Nada mais as diferençou



A mesma seiva as criou

Na mesma campa nasceram



Dizem contos magoados

Que aquele triste coval

Fora leito nupcial

De dois jovens namorados,



Que, no amor contrariados,

Ali se foram finar,

E continuaram a amar

Lá no além, todavia



E por isso ali havia

Duas roseiras a par



A lenda, simples, singela,

Conta mais, que as rosas brancas

Eram as mãos puras, francas,

Da desditosa donzela



E ao querer beijar as mãos dela,

Como na vida fazia,

A boca dele se abria

Em rosas de rubra cor



E celebravam o amor

Conforme o vento as movia





Quando as crianças passavam

Junto à linda sepultura



Toda a gente afirma e jura

Que as rosas brancas coravam

E as vermelhas se fechavam

Para ninguém lhes tocar



Mas que alta noite, ao luar

Entre um séquito de goivos,

Tal qual os lábios dos noivos

Iam-se as rosas beijar. "

2003-11-27

MELANCOLIA FORENSE

Ontem, injustamente - por causa do magnífico sol de inverno- , estive melancólico. Devia ter-vos escrito este mesmo texto ontem.
Ou talvez não.
Hoje não estou melancólico, estou com o mesmo alento que me transcende quase todos os dias do ano.

Ontem pensava, na mais rigorosa solidão, que direito teria eu de querer a toda a força ser advogado neste país, e recusar empregos em grandes empresas. Que direito teria eu, perante a minha mulher e o meu filho, de recusar um rendimento provavelmente dez vezes superior ao que consigo retirar desta profissão que escolhi, e que gostava de exercer até descer sete palmos. E talvez depois, nunca se sabe.

Uma coisa é certa: a toga sai-me do corpo para a madeira do meu caixão, e daí para o corpo do meu filho, seja ele advogado ou não.

E, por favor, não vejam estas palavras como a negra tradução de uma lágrima endógena, mas como a perene convicção de uma sorriso transversal.

Não há aqui consolo possível que me possam dar, porque não há nada para consolar.

Sou objectivamente feliz na opção que fiz, embora leve pela vida o meu corpo em carne viva, e me doa de forma intensa cada vez que a honra dos advogados é atacada, seja no parlatório da nação, seja na mesa do café, seja ainda pelos mascarados de toga, neste permanente carnaval que a nossa classe vem vivendo há uns bons anos.

Sim, porque se há algo que eu não vi em nenhuma Assembleia de Advogados, foi um rasgo de crítica lúcida aos caminhos da própria classe, ao feitio maioritário que se impõe no subconsciente de cada advogado, mascarado ou não.

Vejo gritos de revolta tão cínicos, que me contorço de desgosto sobre o meu próprio tecido.

Não sendo este um texto de exemplos, depois de ouvir muitos colegas falar, sob aplausos, dos escândalos do suporte digital, atirando sempre as culpas para o lado de lá, gostava que tivesse dito o que tantas vezes digo a colegas: tendo a lei do suporte digital facultativo quase quatro anos (quatro anos!), estou profundamente convicto de que 99% dos advogados (ainda assim salvam-se 200) só fez alguma coisa por isso neste ano de 2003! É certo que a reforma legislativa de Setembro foi desastrada e desastrosa (tanto, que me têm visto calado, pois considero que o amadorismo quebrou todas os limites que a minha sanidade mental permite suportar), mas choca-me esta aflição com o suporte digital.

Claro que, por se constatar que classe é assim, eu próprio acabo por votar favoravelmente que o suporte digital seja facultativo (digo-vos que apreciei a confusão do "é,não é", porque tem sido graças a ela que a maioria se tem mexido).

Agora, eu estou preocupado é alguns colegas mais antigos que, pura e simplesmente, não conseguem reagir a isto tudo - por vergonha da sua inadaptação- , como um ilustríssimo advogado, grande nome do Porto, que foi o caso que mais me chocou nestes oito anos a batalhar na área das tecnologias, e que, depois de me ir adiantando algumas desculpas no átrio do Tribunal de Gondomar, me foi dizendo, com os olhos submersos em vergonha, mas com a voz colorida por uma dignidade tocante, que estava desesperado, que perdera as funcionárias por causa desse desespero, que a filha (auditora de justiça - outro golpe para o colega, por ter deixado o estágio de advocacia) estava longe, e que a máquina de escrever estava avariada, pelo que voltara a requerer e articular à mão há mais de um ano. No Porto, não em Bragança!

Recuso-me a aceitar e a acreditar que a advocacia está pior do que nunca. E, mesmo que assim fosse, quem melhor do que nós sabe que a vida de um advogado é feita de luta!

Lutemos, então! Não gargarejemos!

E nós, os mais novos, esta geração desprezada por não ter sentido o fel da ditadura, precisamos dessas lutas!

É verdade que é difícil lutar todos os dias pela classe nas trincheiras, com todo o tempo que isso toma, e, ainda assim, tentar sobreviver da própria advocacia.

Tenho dito a alguns colegas que me desgraço com essa luta, que um jovem advogado não pode perder tempo a lutar, pois precisa dele para sobreviver.

Mas sonho com o dia em que mais e mais colegas se queiram desgraçar assim, que eu não sou nada de especial (não é falsa modéstia, é verdade! A única coisa que eu realmente tenho de bom é o meu sorriso, que dura mais que a média dos sorrisos), e só com a força de mais mãos se consegue chegar a algum lado.

E agora, que a melancolia passou, e eu sei que a minha e mulher e o meu filho perceberão, um dia, porque não posso eu ir ganhar mil contos num trabalho subordinado (sem desprimor para quem o faz!),

Vamos aos trabalho!

Pela Toga,

Pedro Guilherme-Moreira

CARA OU COROA

Li há dias um artigo de revista, no qual, analisando o comportamento das crianças, em especial das introvertidas, se entendia que estas são mais susceptíveis a dar largas à sua imaginação, criando um mundo próprio que reservam só para si e no qual se refugiam.
Imaginam assim personagens com nome e características próprias, com as quais dialogam e com quem podem até viver grandes aventuras.
Tal fez-me criar analogias com o meu próprio comportamento enquanto criança, bem como com o meu irmão Nuno e o meu filho Luis. Ao primeiro surpreendia-o muitas vezes a lutar em frente ao espelho, imaginando-se super-herói; ao segundo ainda hoje o vejo a jogar "caricas" imaginando os maiores e melhores jogos do campeonato de futebol.
Parece-me necessária esta atitude, como forma de sublimação das nossas tendências artísticas, sentimentais e até agressivas.
Lembro-me que, entre os oito e os dez anos, quando estava interno no colégio e no qual naturalmente sentia a falta de comunicação com a família, tendo que resolver os meus pequenos problemas sozinho, dei-me a falar solitário com uma das frondosas árvores de tília que povoavam o nosso recreio.
Passei assim a consultÁ-la nos mais variados assuntos, bem como até em vaticínios sobre o meu futuro.
Claro que não obtinha qualquer resposta, mas sentia um certo desabafo interior ao fazê-lo, tal como se conversasse com um pai (que já não tinha), ou com mãe amiga, que me acariciaria e aconselharia pelo melhor.
Um pouco independente, por volta dos meus quinze anos, tendo já há muito saído do colégio e trabalhando, lembro-me que, quando tinha que decidir um assunto, nem que fosse escolher este ou aquele filme, ir por esta ou por aquela rua, utilizava o método que apelidei de "cara ou coroa".
Escolhia uma das faces de uma moeda - normalmente de cinco tostões - na altura de cor branca, com uma face em que aparecia a "cara" da República e na outra o Escudo português "coroa" e lançava-a ao ar apanhando-a na mão. Saía cara ou coroa claro, mas independentemente do que mostrava, eu optava pelo que efectivamente o meu subconsciente desejava.
A moeda tornava-se na catalisadora do meu querer e qualquer que fosse o resultado indicava-me indirectamente qual o caminho a seguir.
No meu íntimo eu já tinha uma escolha... a moeda obrigava-me a decidir.
A.M. Dias Carvalho

2003-11-10

A VISÃO

A porta rangeu.
António Pastor chegava a casa ainda a tresandar a ovelhas e a cabras. Tirou o chapéu de aba larga, poisou o cajado, passou as mãos por água e, na sua voz rouca de tabaco mata-ratos, lá atirou à mulher as palavras do costume:
_ Maria do Céu, como estão as novidades?
_ Uma pobreza, António. Este ano, nem os chícharos medram.
Dizia isto com sentida mágoa, pois todo o seu mundo se resumia à casita e à horta. Cinco décadas! Cinco décadas a arrumar, a lavar, a tratar da bicheza, a aturar as más palavras do marido, a cavar a horta. Muito mais de meio século ostensivamente estampado no rosto, nas mãos, no corpo e... na alma. De olhar vago e frio, herança da cova glaciar onde sempre vivera, ajeitou a toalha remendada sobre a mesa.
Enquanto sorvia as primeiras colheradas de sopa de feijão vermelho, António surpreendeu a mulher:
_ Amanhã, quero que venhas comigo. Reforça o farnel que de Manteigas lá acima é um puxão dos bons.
Uma sensação estranha apoderou-se dela. Inconscientemente, persignou-se.

Nessa noite, rezou o Acto de Contrição vezes sem conta. Ir lá acima! Tão perto do Céu e do Senhor! Tinha de ir limpa, tinha de ir pura.

O azul espreguiçava-se acordado pelo som de chocalhos, balidos e berros. Uma brisa muito suave, perfumada pelas agulhas dos pinheiros, beijava o rosto, corado pelo esforço da subida, de Maria do Céu. Não ousava olhar para trás. Lá em baixo, o alvo casario brilhava afundado em verde escuro.

Ainda com a respiração opressa e de cesta na cabeça, arregalou os olhos perante a imensidão que a espantava. Montes e mais montes, vales e mais vales abraçados por um horizonte sem fim!

Soltou-se-lhe, da voz embargada, a pergunta:

_ António! Então ainda há mais mundo?

O espanto mirrou lentamente e deu lugar a uma mágoa tão sentida que lhe caiu dos olhos e se despenhou pelas escarpas da serra.

Abel Dias Ferreira

2003-11-03

MATAR E MORRER

Tinha, até esse dia, a sorte de nunca ter tido alma chegada internada num lar de idosos. A partir desse dia, passeio na vida com a culpa dos pobres, a culpa dos que sentem a responsabilidade do mundo sobre os seus ombros. Sentem e têm. Deixam-nos ter. Convém-nos que a tenham.

Apenas dois momentos de dignidade colectiva naquelas doze pessoas, depositadas sob mantas ao canto dos sofás: quando eu dei as boas tardes da chegada, e quando eu dei as boas tardes da partida.
Passam assim os dias, as horas, os minutos, os segundos.

O ambiente era denso, negro, e tinha peso. Via-o pelo meu filho de quatro anos, que, sendo hospedeiro de uma simpática colónia de bichos carpinteiros, ficou gelado todo o tempo que permanecemos naquele depósito de sons e imagens de agonia.

Mas hei-de lá levá-lo sempre, uma e outra vez.

Em todos, vê-se que esperam a morte para já, vê-se que esperam deles apenas isso, vê-se que os tratam como quase-mortos, com estalidos de língua marca não-há-mais-nada-a-fazer.

Ninguém nunca mo disse, mas eu sempre li as estatísticas da esperança de vida descontando pelo menos 10 anos ao declarado.

São 10 prováveis anos (para quem não tiver a sorte de se poder agarrar à lucidez e resguardar a autonomia física) em que o nosso ser, neste desgraçado país, ao invés de morrer, se derrete a um canto onde nem sombras há, pois que é de noite e não há luz para o contraponto. Nem haverá.

Os olhos da minha avó contêm a sua imagem de há cinquenta anos agarrada a uma corda com vigor, enquanto o corpo se desmorona em volta. As palavras demoram a chegar-lhe aos lábios, tudo se processa com mais lentidão. Está velhinha, tem quase 90 anos, mas, como todos sem excepção naquela sala, liberta uma luz fina do olhar onde se pode ler "Eu ainda estou aqui. Eu ainda sou eu." Há apenas que ter paciência, uma paciência terna, há que saber esperar pelos nossos velhinhos.

A rotina, os procedimentos, as fatalidades e as doenças de cada um, as empregadas sem qualificação, tudo e mais alguma coisa ergue uma cortina de trevas que empurra aquelas doze pessoas para o chão.
Para quem não quiser olhá-las nos olhos, elas serão concerteza pedaços de carne inútil que se arrastam no mundo. Para quem o fizer com atenção, verá a espiral que conduz ao seu passado, verá os alicerces daquilo que ainda são, e não do que foram, que a morte ainda não passou por ali. Para quem não tiver medo de lhes tocar, de lhes pousar a mão sobre a face, e mesmo em silêncio lhes transmitir o obrigado do mundo que está de pé por causa delas, que o faça.
O mundo descobriu agora o que são crianças, mas ainda não descobriu os seus pais imediatos, aqueles a quem chama velhos. E não é a cultura do lar que está em causa, porque em casa pode passar-se o mesmo.
Sem uma actividade, sem um apoio, sem um ombro mais suave, o seu dia a dia transforma-se num rio lento e gelado onde apetece cair.
A Dª Rosa queria-me vender uma bonita tapada que não sabe que já não tem. E eu, estando comprador, quis ouvir a Dª Rosa descrever a tapada.
O Sr.Hermínio, com uma expressão poderosa, chegou-se a mim, olhou-me nos olhos, estendeu-me a mão e apertou a minha com vigor. Demorou-se. E eu percebi. Ele já não falava, mas era o Hermínio marceneiro.
A avó Glória, a grande mulher responsável por uma empresa que geriu com coragem, viúva de um grande amor desde muito nova, quis que eu soubesse da sua indignação por lhe ter sido retirado o papel de repartidora das regueifas que uma neta lhe deixara na véspera. E que lhe tocara um naco ridículo, quando o petisco era todo seu, por direito.
A Dª Ana tomou cinco minutos para levar a chávena à boca, cinco minutos para a pousar, cinco minutos para tirar um lenço da saia, e cinco minutos para se assoar. Mas, caramba, fez isso tudo, não pediu a ninguém.
A "rebiti" Dª Manuela não tem saúde mental, mas é danada do físico. Oitenta anos, e não parou um segundo: Dançou, comeu uma flor, varreu o pátio todo. Pareceu-me, ironia, a única feliz.
A Dª Madalena queria enganar o interlocutor com a aparência de lucidez. Por isso, falava sem parar, ainda assim parca em ideias repetidas e sem-sentido. Mas, nas poucas que o eram, era bom embarcar sem-sentido e era bom ouvir ideias repetidas - e eram repetidas porque lhe diziam demais: o filho era major no quartel, o filho era major no quartel, o filho era major no quartel. Ai daquele que lhe vá dizer: "o meu é general!"

E muitos outros foram espreitando do seu canto, habituados a ser ignorados.Só a resposta às boas-tardes é vigorosa. E lá estarão eles, os velhos, para dar mais respostas vigorosas, como se tivessem muito medo de fazer as perguntas.
Pode vir algum vento que lhes diga velho, ninguém está interessado em ouvir-te, velho tu já não importas.
Velho, morre.
Morre, velho!


PEDRO GUILHERME-MOREIRA

2003-10-28

A MÚSICA EM VERSO BRANCO

De olhos fechados,

eventualmente com as mãos sobre os olhos fechados,

eventualmente com os lábios cerrados sob as mãos sobre os olhos fechados,


murmura-se primeiro a clave de sol, que, de suspensa no ar,

passa a cair imitando a folha caduca do plátano,


e cola-se suavemente à pele,

junto ao pulso esquerdo,

permanecendo visível a quem passe na alameda


a mesma alameda de plátanos das nossas infâncias,

que tinha o comboio a apitar nos cabelos

e o mar aos pés


Depois há uma lágrima trazido pelo arrepio da primeira nota.


A lágrima corre por debaixo do anelar da mão direita,

e depois lateraliza o nariz

e depois escala o lábio superior

e depois divide-se

e uma parte entra na boca e o sal alerta a língua,

e a outra parte contorna o lábio inferior,

vai caindo


e é junto ao queixo que o músico a tenta limpar

com a parte do pulso esquerdo que continha a clave de sol



e cai na pauta um dó



No fim dessa tarde de outono

tinha escrito a sinfonia


na pele


Soube-se que tal peça viria a integrar a sua própria carne.


e era altamente provável que, muitos anos mais tarde,

o músico do banco da alameda,


como quase todos os músicos do mundo,

não viesse a divulgar a sinfonia subcutânea,


e morresse lixeiro, como era,


como todos os que morrem o que parecem,


e afinal são músicos.



Pedro Guilherme-Moreira

2003/10/27

2003-10-24

PÁGINA 14

Do dia de hoje, Sexta, 24 de Outubro, o exemplo de vida que me fica é oriundo de uma página inteira (a página 14) de publicidade no "Público". imaginem!

Mas é Notável:
É da Atalanta Filmes, que, ao citar excertos de críticas aos filmes que está a exibir, não se fica pelas positivas.
Também publica as negativas. Mesmo as muito negativas.
Um só exemplo. O excerto de uma crítica de Augusto M. Seabra a "Dogville" de Lars von Trier:
"É o mais repelente filme que vi em anos."

Alguém me dirá que não é caso único, que é estratégia da empresa, que tem segundas intenções. Seja.
Obviamente que a intenção é que as pessoas vão ver os filmes publicitados.

Mas a Atalanta dirige-se claramente a uma franja de pessoas, que eventualmente (e inocentemente) a empresa acreditará ser alargada, e que eu acredito apenas ser reduzida, mas estar, felizmente, a aumentar.
Dirige-se a pessoas que admitem com lucidez que uma obra de arte ou uma obra sem arte, um gesto ou um olhar, podem sempre ser vistos de dezenas de diferentes perspectivas, e não é por isso que deixa de valer a pena apreendê-los, apreciá-los.

Bendita serena tolerância. Bendita honestidade intelectual.
Bendito publicitário que, sem a isso ser obrigado, percebeu que podia dispensar a hipocrisia das memórias selectivas

A mim, a página 14 enche-me a alma e o coração, faz-me feliz, faz-me acreditar que, afinal, não há só bois e palácios.
Fica-me este gesto sedimentado para sempre na memória.

Entre as tempestades e as bonanças da vida, por favor escrevam-me sempre uma página 14!

PEDRO GUILHERME-MOREIRA

2003-10-20

GANGS

Existem gangs em toda a parte.
Suponho que até na nossa alma, às vezes ígnea no crepitar de um para-sentimento.
Porque o sentimento ódio não pode existir.
Nem o dicionário o consegue definir, sem uma fraqueza poética:"Paixão que leva a desejar a desgraça de alguém;"

Depois de se ver "Gangs de Nova Iorque", de Martin Scorcese, e sem que esta seja uma crónica do filme, mas simplesmente a sequência do mesmo, tomado como mote de uma reflexão, ficamos com a certeza de que o ódio é um elemento histórico, que deveria ser pretérito neste ponto do globo, e desconhecido para cada homem bem-formado.

Mas, como acontece de cada vez que presenciamos os frutos do ódio, é terrível vê-lo percorrer o seu caminho no olhar de um ser humano.
Dir-se-ia, afinal, que outros animais não têm capacidade para partilhar tal aberração da natureza.

Desde o momento em que abrimos os olhos, agora para o dia nascente, antes para o mundo, é obrigatório ter um copo de lucidez junto à cabeceira.

Bebemos o conteúdo, lavamos com ele a cara, calmamente, e só depois nos vestimos e saimos à rua.

A cada passo de cada trilho de cada homem, a cada minudência de cada esquina da existência, devemos convocar o olhar límpido da manhã de lucidez.

Se assim todos fizéssemos, mais fácil seria perceber que o mundo, afinal, não está a ruir à nossa volta e que, bem pelo contrário, os homens se aproximam do seu centro de pureza, pé ante pé, até à vitória final.

Nunca como hoje houve tanta liberdade.
Nunca como hoje tanta gente reflectiu e opinou sobre cada pequena porcaria factual.

Após a convulsão dos que não sabem ser livres, ou dos que, sabendo-o, querem com isso rentabilizar a sua ganância, o homem ficará reduzido à simplicidade do seu olhar, na pressão global de cada um querer ser a melhor pessoa possível.

Há hoje gangs de submundos, por um lado (e este país ainda espera esse sinal da civilização, que é a tomada das cidades por essa treva), e há também há violentos gangs de ideias e sentimentos.

Está bom de ver que muitos de nós assumimos uma de duas posturas distintas, nas estradas modernas da respiração:

- ou baixamos os braços, em atitude de sobreviência, e vamos fazendo quilómetros, levando pancada aqui e ali, até à boca do caixão, onde se dirá que éramos bons homens;

- ou erguemos os punhos, prontos a socar tudo e todos, com a mera justificação de que a vida é uma cabala gigante de monstros prepotentes e poderosos;

Ainda que muitos de nós não se reconheçam numa ou noutra postura, a verdade é que todos poderemos caber, ou já ter cabido, nelas.

Contudo, o filho-da-mãe do chato que não deixa nenhum do seus amigos insultar um desconhecido, julgar sumariamente uma figura pública, violentar um interlocutor,

o filho-da-mãe do chato que não deixa passar cinismos pela peneira da sua alma branca, que se opõe a injustiças claras sobre terceiros, oferecendo o seu próprio corpo,

o filho-da-mãe do chato que dá todo o crédito ao seu próximo, abrindo-lhe as portas de si,

o filho-da-mãe do chato que tranca, a sete-chaves e nas traseiras do seu ser, os preconceitos, os clubismos desportivos e políticos, as ideias estanques, as certezas absolutas, as opiniões eternas sobre algo ou alguém,


esse filho-da-mãe que, num primeiro momento, pode criar a convulsão dos instalados, há-de, a longo prazo, dominar o mundo.

Nesse dia, o poder será um cavalo a descansar à sombra de uma árvore, e só será montado em nome de todos.

Não se diz, em fim de crónica, que este é o utópico caminho para a perfeição da humanidade. Nem que a profunda inocência destas palavras são a solução dos males da esfera de pó em que vivemos.

Ao Guerreiro transparente, porque luta sem interesse e em nome de todos, hão-de sempre chamá-lo de pobre inocente inadaptado.
O que ele, na sua luta, absorve, com naturalidade, como tempo de antena. Como fabulosa propaganda do contra-pé (e contra o pé).

Diz-se apenas que,

se cada um de nós beber pela manhã do copo de lucidez, se com ela lavar a cara e até a alma, sua e a dos outros,

se cada um de nós se oferecer para o contágio ao próximo por via da luta (porque o bondoso passivo só serve para lá estar, e não para o seu semelhante) silenciosa por pessoas melhores,

se cada um de nós, ao fim de anos de insistência na genuína bondade, conseguir dois companheiros que ostentem esse seu perfume,

podemos ser bons desastrados, matéria-prima dos ignóbeis,


Mas havemos de ter cercado os gangs, os mesmos que sangraram as entranhas do seu pretenso inimigo pela história, ou o estarão dispostos a fazer pelo futuro dela, a um reduto desesperado de maldade.

Houvesse só mais dois sorrisos puros ao meu lado no fim do caminho, e eu morreria feliz.

PEDRO GUILHERME-MOREIRA
20 de Outubro de 2003

2003-10-17

A idade da inocência e o pecado.

Lembro-me, teria seis anos e pouco, de ter ouvido dizer que o pecado só existia a partir do entendimento.
Tinham também estabelecido os adultos que a idade do entendimento começava a partir dos sete anos, talvez porque naquela altura se dava entrada na escola primária, se começava a ir à catequese, e saíamos debaixo das saias da mãe.
Por aquela época, atormentava-me o facto de poder ter cometido um pecado, sei lá... uma bola furtada, o ter dito uma palavra feia, uma canelada dada a um amigo, uma festa mais prolongada numa colega - brincávamos aos curativos... eu tinha um casaco branco a fingir de médico que envergava para essas ocasiões, e numa delas entretive-me demorada e pacientemente a esfregar com sebo as pernas da vizinha Justa. No dia seguinte levei um puxão de orelhas, porque a mãe dela se veio queixar à minha: tinha tido um trabalhão para retirar a pomada das pernas da miúda.
Como sabia, aterrado, pela catequese, que se morresse de noite em pecado mortal, iria direitinho para o “fogo dos infernos”.
Teria assim urgentemente de me confessar, o que não me apetecia nem agradava.
Andava por isso preocupado e receoso e pensava, e tornava a pensar, aumentando a preocupação.
Até que me surgiu uma ideia salvadora.
Matreiro, perguntei à minha mãe uma coisa que eu já sabia:
" - Mãe, quando é que se atinge a idade do entendimento ?
- Aos sete anos ! " respondeu ela prontamente.
Não os tendo, não tinha entendimento...
Não tendo entendimento, era inocente!
Sendo inocente, não podia pecar...
Não tendo pecado, já não iria para o "inferno à arder".
Doce engano, saborosa falácia dos meus seis anos e pouco...

A.M. Dias Carvalho

2003-09-29

SILVA PEREIRA NO MEU BARBEIRO

Para memória futura, como diz o outro naquelas pungentes reportagens da TVI (essa expressão tem o meu vómito automático, nos dias que correm), aqui ficam uma pergunta e uma aposta do meu Barbeiro. A voz do povo é normalmente sábia, embora às vezes (muitas), também prodigamente demagógica. Fica à vossa apreciação o que decorre da seguinte...

...pergunta: "Como é que eu hei-de estar sossegado, sabendo que um recurso meu pode ir parar às mãos de uma pessoas que perde a calma desta maneira? e ainda por cima é Presidente da Relação, não é?"

...e aposta: "Aposto que o homem não vai ser punido por ninguém! Nem pelos tribunais, nem pelos "chefes" dele! Se fosse um zé-ninguém....Por mim, era já demitido!"

Conclusão:

Foi muito difícil, perante tais dúvidas ou tormentos, defender o colega do foro.

E dizia eu que este "merda affaire" não prejudicava a imagem da justiça...

Pedro Guilherme-Moreira, 2003-09-29

ADAPTATION

O (bom) cinema é assim: suavemente, pode podar a nossa percepção do cerne das coisas. Que renasce mutante.

Não é meu costume oferecer flores por causa do que quer que seja.
Ofereço flores porque sim.
Gosto, aliás, de dar porque sim.
O "porque sim" é a minha filosofia contra o mercantilismo das emoções.

Não gosto de comprar flores.
Mas gosto de ver o sorriso na transparência da pétala.

A minha indiferença em relação às flores mudou, contudo, desde que vi o "Adaptation", do Spike Jonze.
A forma como ele filma, num primeiro olhar (não num último, em que se pretende banalizar a flor aos olhos de Sursan/Meryl Streep), a orquídea-fantasma, conjuntamente com a explicação científica da capacidade de adaptação das flores e dos insectos uns aos outros (as orquídeas assumem normalmente a forma do insecto que as poloniza), é de nos atirar por terra.

Tenho, pois, de agradecer ao Spike o nascimento das flores no meu regaço.

Nicholas Cage, o desalinhado do clã Coppola, é para lá de soberbo (anda aí a Sofia a ser soberba atrás da câmara, também:).

Mas isso levar-me-ia a uma dissertação sobre os óscares que não pretendo agora.

Fica o sorriso amarelo pelo título em português ("Inadaptado"), redutor , como de costume, e até "muito mentiroso".

Pedro Guilherme-Moreira

2003-09-16

Historias de Sá Mucondo- o leão, o sol e a chuva

Sá-Mucondo vinha caminhando pelo mato. Seguia um estreito carreiro calcado no capim. A época das chuvas já lá ia e o mato estava agora seco. Fazia tempo que não chovia.

Ao longe viu um leão. Se calhar não se devia aproximar dos leões. Mas aquele leão era diferente. Tinha uma juba ruiva. E um sorriso tranquilo. O leão estava sentado à beira do rio.

Sá-Mucondo aproximou-se.
- Olá amigo leão - disse.
O leão ficou admirado com a presença de Sá-Mucondo. Mas respondeu, com um sorriso:
- Olá ! Quem és tu ?
- Sou o Sá-Mucondo. Um contador de histórias.
- E o que fazes por aqui ? - perguntou o leão ao Sá-Mucondo.
- Vinha a passar. Vi-te à beira rio. Vim dizer-te olá.
O leão sorriu para o Sá-Mucondo. Não era normal os leões sorrirem. Muito menos a contadores de histórias. Os leões eram caçadores. Vigorosos. Cheios de vida. Mas aquele leão parecia diferente. Tinha um sorriso.

Ficaram, depois, os dois um bocado à conversa. Falaram do sol. E da chuva. O Sá-Mucondo contava histórias. E o leão ouvia. Quando a noite começou a cair Sá-Mucondo despediu-se do leão.

- Adeus amigo leão.
- Adeus Sá-Mucondo.
Sá-Mucondo voltou ao carreiro calcado no capim. E seguiu o seu caminho.
No dia seguinte Sá-Mucondo voltou à beira do rio. E lá encontrou o leão.
- Olá amigo leão - disse.
E o leão respondeu-lhe com um sorriso: - Olá Sá-Mucondo.
E ficaram ali à conversa. Falaram do sol. E da chuva. O Sá-Mucondo contava histórias. E o leão ouvia.
Nos dias seguintes Sá-Mucondo voltou a passar por ali. Não lhe ficava em caminho. Mas foi-se habituando. Seguia o estreito carreiro, calcado no capim. E, quando chegava à beira do rio encontrava o leão. E ficavam a conversar. Sobre o sol. E a chuva. O Sá-Mucondo contava histórias. E o leão ouvia.

Sá-Mucondo foi sentindo uma estranha necessidade de estar com o leão. De com ele conversar. Sobre o sol. E a chuva. De contar histórias. E de sentir que o leão ouvia. Por isso todos os dias seguia o estreito carreiro, calcado no capim. Até à beira rio. Esperando encontrar o leão. Para lhe contar histórias. E ele ouvir.

Até que um dia, quando chegou à beira rio, Sá-Mucondo não viu o amigo leão. Ficou triste. O que havia agora de fazer ? Gostava de estar com o leão. De com ele conversar. Sobre o sol. E a chuva. De contar histórias. E sentir que o leão ouvia.

Mas o leão fora caçar. Sá-Mucondo esquecera-se que os leões têm de caçar. Que gostam de ficar sentados à beira rio. De ouvir histórias. Mas têm de caçar. E por isso não podem estar sempre à espera. Para conversar. Sobre o sol. E a chuva. E ouvir histórias.

Sá-Mucondo olhou para o rio. E ficou ali a vê-lo correr. Foi então que reparou na imagem que se reflectia nas águas límpidas. Era a sua imagem. E percebeu como era diferente. Não era um leão. Vigoroso. Cheio de vida. Era um Sá-Mucondo. Um contador de histórias... Das suas histórias. Que só ele entendia. E que só ele imaginava. Por isso também imaginara que o leão sentia a mesma necessidade. De conversar sobre o sol. E a chuva. E de ouvir as suas histórias. Era isso. Tinha criado uma história. A história do leão que gostava de ouvir o Sá-Mucondo. Só podia ser uma história que ele tinha imaginado... O leão era um caçador. Vigoroso. Cheio de vida. E ele, um contador de histórias...



Nuno Albuquerque

2003-09-04

O QUE O FOGO FAZ - Relato de uma Viagem

(...) Esta semana fui convidado a ir a Malpica do Tejo. Para
quem não sabe onde fica, pensem em Castelo Branco. Agora tornem cerca de 20
Km para o lado de Espanha. No mapa é bem capaz de ficar em cima do risco que
divide os dois países. Aí está Malpica do Tejo!


Em Malpica do Tejo, apesar de ser Distrito de Castelo Branco, não existia
nenhum incêndio! Aquela é uma terra calma, de um casario imaculadamente
branco, estradas empedradas e de paralelo, onde os "velhotes" ainda andam na
carroça para ir à sua horta que fica a uma hora de caminho com o burro a
puxar... Ali conhece-se o sossego. Temos tempo para contar as estrelas do
céu. Enfim... um local de sonho para quem gosta de sossego. Não há nada para
ali fazer que não seja... fazer nada.

Fogo, já o disse não existia ali. No caminho que fiz (fui de Alverca pela A1
até Abrantes e depois pelo IP2 tentei ir até Castelo Branco) fiquei a
conhecer pelos meus olhos a desgraça que assolou o País. Não precisei de
mais de 20/25Km pelo IP2 dentro para ver que o "barbeiro" ali tinha passado.
Tudo negro. Aquilo que há um mês (quando lá havia passado pela última vez)
era uma paisagem que se começava a amarelecer com o calor do sol... Enfim...
já estava ardido nada a fazer! Desejei que o resto do caminho assim não
estivesse. Errei! O caminho estava todo assim!!!! Golegã, Constância, Gavião
e por aí diante estava tudo em chamas, tudo ardido! O fumo no ar não deixava
que eu visse para além de 1Km na linha do horizonte. Depois... bem depois
era um nevoeiro denso, um fumo negro como nunca havia visto!

Chego ao Fratel e... IP2 cortado ao trânsito. Andavam por lá os soldados da
paz atrás do "barbeiro malvado". Nem valerá a pena dizer-vos que a nuvem de
fumo que me dava, há uns quilómetros, alguma visibilidade era ali de uma
densidade que não me deixava mais de 500 metros para a frente com
visibilidade aceitável! Na estrada funcionários da SCUTVIAS e elementos da
BT indicavam os caminhos alternativos. Pareciam ET´s com aquelas máscaras
brancas...

Segui o caminho alternativo que me indicaram. Já com algum ardor nos olhos e
secura na garganta, confesso.

O meu carrito não é novo e eu não troquei o ar condicionado pelos piscas.
Preferi os piscas. Por isso, com calor tenho de andar com janelas abertas. O
que, bem estão a ver, me dificultou a viagem. Era escolher entre calor e um
fumo dissimulado dentro do carro ou uma janela aberta e um ar queimado a
circular. Viesse o diabo que eu já estava por tudo. Abria a janela, fechava,
abria... e só me lembrava da àgua que a minha mãe me ofereceu para levar e
eu havia recusado. Que jeito ela dava naquela hora.

Lá sigo eu, por estradas de curva e contra curva a caminho de Nisa!!! O fumo
no ar continuava e densificava-se a cada quilómetro. Chego a Nisa e, com
muita tristeza, vejo as pessoas da terra do bom queijo ( e não só...) como
tinha visto a BT há muitos quilómetros atrás: de máscara. Compreendi,
aceitei e ficava furioso! Mas continuei caminho em direcção a Vila Velha de
Ródão! Tudo igual. Muitas curvas, muito fumo, muito trânsito, muita revolta
pelo que via. O fogo esteve ali!

Passei em cima do Rio Tejo. No meio umas ilhotas tinham daquela vegetação
espigada. Até aí, no meio do Rio estava a arder!!!!!!!!! Triste, muito
triste.

Entretanto chega Vila Velha de Ródão passo e mais adiante... seta a indicar
Perais. Estava na minha hora de fugir do meio daquela desgraça. Andei,
andei, andei. Talvez 20 Km. Um pouco mais não será exagero. Não vislumbrava
fogo para onde quer que olhasse. Mas o fumo perseguia-me. Muito fumo!
Passo Perais, Alfrívida e Lentiscais (quando quiserem comer umas migas de
peixe do rio inigualáveis lembrem-se dos Lentiscais, num restaurante
familiar onde só se come disto e tem de se marcar primeiro!!!). Talvez
30/35Km depois de ter saído de perto do fogo. O fumo continua a
perseguir-me. Malpica não estava longe! mais 5 Km e era meu aquele cantinho
de sossego!

Cheguei!!!!!!!! Infelizmente trouxe o fumo comigo. Posso arriscar que num
raio de 30 a 40 Km não havia fogo (nem tão pouco teria existido fogo nos
últimos dias ali nas redondezas). Mas o fumo fazia pensar o contrário. Era
tanto e tão denso que não haviam estrelas no céu. Ou melhor elas estavam
lá... nós é que não as víamos! Os velhotes da terra aflitos. Uns com
dificuldade para respirar, outros com máscara e indecisos entre continuar a
cumprir o velho hábito de se sentarem junto à porta de sua casa a trocar
palavras que o vento nunca há-de levar com o vizinho da frente ou
fecharem-se dentro de uma casa fustigada pelo calor que se fazia sentir.

O fogo... o fogo mexeu com Malpica meus senhores! O fogo mexeu com uma terra
longe de tudo mas tão perto do sossego. O fogo mexeu com os hábitos daquela
gente. O fogo desassossegou uma terra que nunca havia conhecido a exaltação.
O fogo... o maldito fogo!
Para que vejam o quanto Malpica mudou nestes dias posso dizer que lá estive
três dias. Três dias em que deu para que o meu carro, junto às escovas do
pára-brisas, acumulasse cinza!!! Cinza de um fogo que não era dali, mas que
ameaçava aquela gente pelo cheiro do seu fumo! A festa da terra não teve
fogo de artifício. Não teve muita gente. Que desolação. Quem é chegado a
Malpica sabe a devoção que as pessoas têm ao Santo da Terra. O "A Santa
(N.S. das Neves) não foi honrada" dizia um velhote olhando para a nudez de
uma festa que prometia.

O fogo trouxe tristeza a Malpica.Tirou-lhe as estrelas, o céu!

Estou triste porque vi o fogo, vi Malpica triste e desassossegada!
Solidário com quem sofre com ele.
Admiro e respeito quem o combate.

LUÍS MIGUEL JESUS, 2003-08-08

2003-08-21

ELE NÃO SABE SE AQUILO É UM VESTIDO...

Ele não sabe se aquilo é um vestido, um roupão ,uma blusa larga e mais comprida que o habitual ou uma daquelas peças que as mulheres costumam vestir em momentos de crucial importância.

Encostada ao umbral da porta , perpassa , a contra-luz , a plasticidade das formas do corpo de Joana que a doença ainda não desfigurou.

Vendo-a , assim , nessa transparência frágil e resplandecente, Júlio não sabe se é a ela que vê ou a sua. aparição .

.Não corre para a pegar ao colo e deitá-la numa cama de nuvens para a olhar demoradamente no seu regresso à vida. Fica como está , sentado no sofá ,o olhar perdido no tempo, em busca de sinais de identificação entre o corpo conhecido e o corpo agora revelado.

Reconhece no pescoço de Joana a altivez dos tempos de sáude e no rosto a comoção iluminada pela alegria do regresso a casa.

.O olhar escuro e fundo de Joana , sem dúvida mais triste agora. Percebe que está à beira do abismo e que se a quer de volta não existe outro meio que não seja naquela suspensão antes que o tempo dê em correr e eles se percam de vez.

Júlio levanta-se.Pega em Joana ao colo , deita-a no sofá e , ajoelhado ,junto dela , desabotoa-lhe o vestido :o corpo inteiro de novo ao alcance das suas mãos.

Joana deixa que Júlio a contemple na crueza impiedosa da ausência do seio..Fecha os olhos porque tem medo de ler o olhar de Júlio. Sente indeléveis os dedos que a percorrem para a reconhecer e começa um breve sorriso quando , por baixo da pele, um frio suave a faz estremecer.

A mão de Joana procura devagar o coração de Júlio e , quando o encontra ,descontrolado ,deseja que uma força vinda de dentro desate o nó que a prende ainda ao tempo escuro das tratamentos no Instituto de Oncologia e lhe permita voltar aos tempos do encantamento .

Júlio, fechado nos seus pensamentos , procura palavras para dizer a Joana e não as encontra .

Quer dizer-lhe que ela é o eixo sobre o qual gira toda a sua vida mas tem medo que ela pense que é uma despedida.Quer dizer-lhe que nada mudou mas ambos sabem que a vida dos dois ficou em frangalhos .

.. O amor, de tanto amor , bloqueia o raciocínio e Júlio precisa dele para encontrar as palavras certas que há-de dizer a Joana , agora adormecida no seu colo.

A realidade fecha-se à volta da memória pictórica daquela tarde fria de Inverno quando desciam a avenida e Joana lhe disse “sabes , gostava de continuar a ver da cidade o rio. “

Júlio abraçou Joana, beijou-lhe o pescoço e enquanto a beijava, não deixando um milímetro sequer da sua pele por beijar, lembrou-se das palavras do poeta .” “Penso em ti e estou completo” .

Viana , 8 de Março de 2oo3

Luisa Novo Vaz

2003-08-05

DOMINGO FILHO DA PUTA

Desculpem-me os mais sensíveis, mas considero esta a única tradução possível para o "Bloody Sunday" ocorrido em Londonderry, na Irlanda do Norte, no dia 30 de Janeiro de 1972 (um dia com um outro especial significado para mim...).

Nenhum Irlandês sentiria este "Bloody" como apenas "sangrento".

Bendito o ultra-realista filme de Paul Greengrass, vencedor do Urso de Ouro de Berlim em 2002, que nos mergulha de forma notável no coração da tragédia.
É o filme definitivo sobre este horrendo Domingo*.

Bendito o desempenho brilhante de todos os actores, de onde se destaca, naturalmente, o protagonista, James Nesbitt (quem diz que um actor de televisão não é actor?), que recria a figura de Ivan Cooper, o parlamentar activista dos Direitos Civis que liderou a manifestação pacífica, e ficou com a mágoa perene de ter levado os seus pares, pela mão, ao muro de fuzilamento.
Este homem, ainda vivo (dizem que é a personificação da bondade) é contra os mártires: ele pensa que se deve "viver" pela Irlanda, e não morrer por ela.

Bendita a fotografia de Ivan Strasburg, que literalmente nos transporta para as ruas de Derry.

É bom que nunca se esqueça este dia, como nunca se esquece cada dia de cada genocídio.
Certamente não o digo pelos 13 mortos (até hoje morreram cerca de 3000 pessoas no conflito), mas pelo facto de, nesse dia, ter sucumbido a paz real, que deu lugar à utopia da paz. Até hoje.

Como disse "Ivan Cooper", em forte comoção, na conferência de imprensa que se seguiu à chacina:
"Esta Noite, o Governo inglês deu a maior vitória ao IRA. Esta noite, centenas de jovens vão pegar em armas pela primeira vez."

De reflectir é que nenhum dos responsáveis pela "execução" de 13 pessoas (a maioria das quais menores) tenha algum dia sido punido, judicial ou disciplinarmente, pelos actos praticados.

Como disse o professor de história da Universidade do Ulster, Paul Arthur, ocorreram duas agressões nesse dia: as execuções propriamente ditas, e a ofensa à dignidade do povo irlandês, pelo encobrimento às acções do exército britânico.

Que eu saiba, nunca o Governo Inglês pediu desculpa pelo que o seu exército fez.

É revoltante e assustador que tal se tenha passado num dos países pretensamente mais civilizados do mundo.

Permanece pendente o "inquérito Saville", iniciado em 1998, em que vão ser entrevistadas mais de 280 testemunhas do exército. Do outro lado, há 20.000 testemunhas. (não nos faz lembrar alguns inquéritos cá da pátria?)

Será inútil explicar-vos porque considero este filme, mais que sublime, obrigatório, principalmente para os mais jovens. Obrigatório para que nunca possam ser esquecidos dias como esse 30 de Janeiro de 1972.
Mais que explicá-lo, há que ver o filme.

A outro nível, mas curiosamente sobre factos ocorridos no mesmo país, também é obrigatório o filme de Peter Mullan, "As irmãs de Maria Madalena", uma instituição religiosa que, nos nossos dias (foi encerrado o último "convento" em 1996), perpetrava punições à base de violência física e psicológica sobre raparigas menores cujo único crime, por vezes, eram serem bonitas.
Estas, coitadas, tiveram muitos "Domingos Filhos da Puta", alguns dos quais as levariam à morte, outros à loucura e outros ainda à eterna menoridade mental e sentimental.

O filme Bloody Sunday, ganhou o Festival de Berlim, o Sundance Festival, recebeu uma "standing ovation" em Nova Iorque (apesar da alegada campanha de desinformação do governo britânico, através da sua embaixada), recebeu o Audience Award de 2002, etc, etc.

Mais, foi patrocinado pela Granada Television (inglesíssima, com sede em Londres) e pelo próprio governo britânico, através do British Film Council.

O realizador, Peter Greengrass, é inglês, e não irlandês.

Sem demagogias ou falsos apelos, por favor vinguem-se no cinema para aclarar a consciência.

Pedro Guilherme-Moreira, 2003-08-05



*o "Sunday Bloody Sunday", de Schlesinger, é de 1971 e, podendo ser encarado, pelos mais supersticiosos, como um prenúncio, nada tem a ver, como é óbvio, com os acontecimentos de 30 de Janeiro de 1972.

FILHO

FILHO

A mão dele ainda cabe aberta
Na minha mão fechada.

No dia em que não couber,
vou em busca do abraço
que encerre em mim uma volta.


Os olhos dele ainda brilham
nas frestas do olhar do pai.

No dia em que não brilharem,
buscarei em mim o véu
que lhe devolva o horizonte.


E os seus ouvidos vibram,
desaguando os meus passos.

No dia em que não vibrarem,
vou em busca do silêncio
que me deixe ouvir os seus.


Enfim, um dia, o meu filho,
não vai querer um beijo meu
à porta da sua escola.


Nesse dia, a ternura
que docemente traduz
a violência pura
do amor,
vai sentar-se na mão,


a mesma mão
que em si lhe fechava a sua,
e descansar
sobre o seu ombro,
calada.


Se ao menos nesse dia ele deixasse
fechar sobre si o abraço...


Pedro Guilherme-Moreira
2003-07-30

2003-07-21

Ignoramos todos os dias

Ignoramos todos os dias.

Ignoramos mais do que somos ignorantes. Contudo a todos nós repudiaria sermos militantes do ignorantismo ( até ao computador que a sublinha, a palavra, porque errada). Ignoramos por medo, pressa, pudor, vergonha. Ignorar é um acto de vontade : ignoramos porque queremos, raramente por distracção.
A distância de um ecran , que nos mostra sempre o lado de lá, o relato de alguém, de quem podemos sempre duvidar, vá que não vá! O pior é quando as coisas, as situações vaporizam o nosso campo magnético, nos invadem o olfacto, ignoram os óculos de sol, nos secam a boca de tanto contermos o ar. Aqui não há querer que nos valha e a distracção já ficou lá para trás.
Previne-me um qualquer sentido que um qualquer outro pode entrar em acção e eu suspeito ser a visão que de água a mais pode perder a clareza necessária para dar a volta ao texto. Resta-me apenas tempo para dizer que tudo o que fica dito também assiste a coisas e situações benéficas e pedir emprestado às feitas : "Bem aventurados os pobres de espírito porque é deles o reino dos céus."
Fica a promessa de um outro desfecho.
ANABELA ALMEIDA RODRIGUES, 2003-07-08

O ÓCIO CRIATIVO E A LABORIOSA MEDIOCRIDADE

É preciso despoluir uma baía.

Qualquer Presidente de Câmara ficaria rapidamente inundado de orçamentos de dezenas de milhões de Euros.

Jaime Lerner convocou os pescadores da baía de Curitiba, e disse-lhes que lhes comprava o lixo que eles lá recolhessem.

Em dias de má pescaria, os pescadores pescavam lixo iam sobrevivendo.

Curutiba gastou infinitamente menos com a despoluição da baía, e ganhou um processo de despoluição permanente. Os pescadores agradeceram o refúgio dos dias de chuva.

Prometi no "post" sobre o Dr. Zé, o cego, que falaria um dia de Jaime Lerner, um homem que, para mim, se tornou uma referência. Daquelas que ficam para a vida. E como acredito que percebê-lo, percebê-lo a sério, faz de quem o consegue melhor pessoa, vou tentando alargar-lhe o número de admiradores.

Jaime Lerner é arquitecto, engenheiro, político, ex-prefeito de Curitiba (3 mandatos milagrosos), ex-governador do Paraná e actual presidente da União Internacional dos Arquitectos.

Ora, não sendo eu Arquitecto, sempre me será mais fácil vender a sumidade do homem.

Outro exemplo:

Era preciso arranjar maneira de estacionar os autocarros (ele revolucionou o sistema de transportes da sua cidade) em tempo recorde e de forma precisa.

Das várias propostas apresentadas, uma houve que preconizava o comando electrónico do autocarro nos últimos 300 metros. Custava mais do que toda a frota.

Então, um colaborador de Jaime Lerner perguntou a um condutor se ele conseguia estacionar o autocarro da forma que se pretendia. Ele disse que sim. Fez um risco no vidro da janela do veículo, e outro risco num determinado ponto da paragem. E estacionou na perfeição. E foi esse o sistema eleito, que ainda subsiste.

Ele, Jaime Lerner, diz que o mundo anda nesta permanente luta: entre o ócio criativo e a laboriosa mediocridade. É a sua postura a favor do ócio criativo que o define como referência. Os exemplos seriam intermináveis. Mas este homem faz-me concluir, com uma razoável dose de certeza, que, feito o esforço de identificação dos laboriosos medíocres, todos damos um salto qualitativo - não na arquitectura, não no direito, mas na forma como nos relacionamos com o mundo e uns com os outros.

Visitei nestas minhas férias, feliz e infelizmente a terminar (escrevo-vos da tal varanda sobre o mar, a metade mais saborosa das minhas férias - não é Sophia que diz: "Quando morrer, voltarei para resgatar os momentos que não vivi junto ao mar"?), a linha de costa espanhola de Huelva (Isla Cristina, Canela e Islantilla).Na primeira, o caos urbanístico era de tal forma deprimente, que fiquei a gostar mais do nosso Algarve. E, nas praias conspurcadas de Islantilla, só mesmo a temperatura da água nos fica a ganhar. Claro que indaguei como é possível os espanhóis, com quem tudo temos a aprender em matéria de turismo, terem deixado chegar a Isla Cristina ao que chegou. É uma espécie de Ria Formosa vilipendiada. Não sei a resposta. Sabê-la-ia no país em que vivo.

Mas o mais fantástico em Jaime Lerner é que, perante uma situação destas, que tem tudo de dado adquirido, não baixaria os braços.

Curitiba não nasceu, mas nasceu, quando ele ascendeu à prefeitura, com um suporte político frágil e instável. Mas o que ficou feito em Curitiba, sem recursos financeiros, mas com muita imaginação, é uma lição para todo o mundo.

Espanto-me todos os dias com Jaime Lerner.

Dos dois livros que tem no prelo, só me considero capaz de abordar o "Acupunctura Urbana", pelo qual espero ansiosamente.

"A qualidade de uma cidade, mede-se pela facilidade com que uma criança a desenha."

"Não há nada urbanisticamente mais perfeito do que a rua tradicional."

"Trabalho e residência devem aproximar-se."

"De nada valem os grandes projectos, se as pessoas os não percebem."

Tudo ideias de Jaime Lerner.

Gostava de o ter no meu país, mais que o seu conterrâneo Scolari.

Mas a laboriosa mediocridade diz-nos sempre o que é melhor para o país.

Na Expo 98, ninguém atirava papéis para o chão. Mas em Outubro de 98, todos voltáramos já ao nosso papelinho e à nossa cuspidela no mesmíssimo chão.

No IP5, com o início da tolerância zero, ninguém passava dos 90, e os acidentes quase desapareceram. Identificados os pontos de controlo, voltaram os nossos assassinos de estimação. 90-200-90-200-0. Menos um.

Estamos, pois, num país que se porta bem pela frente, e sempre mal por trás. Um país de terceiro mundo, que bem fazia em assumir-se como tal, e voltar aos bancos de escola para aprender a ser gente..

Um país onde se esquece o que se deve ensinar nas Escolas. Em que o conhecimento elegível é o que o "stôr" "deu" ou "não deu".

E se alguém realmente conversasse com as crianças, se as ouvisse, perceberia isso rapidamente.

Civismo? O que é isso?

O difícil é a simplicidade - Jaime Lerner personifica-a. Os laboriosos medíocres riem-se sempre. Gloriosamente.

Por obséquio, fiquem todos atentos, doravante, a este nome.

Jaime Lerner é uma lição imensa.

PEDRO GUILHERME-MOREIRA, 2003-07-17

2003-07-04

EM MEMÓRIA DE ANTÓNIO PRIETO

À hora em que escrevo tu já foste para outra galáxia que eu não concebo que exista outro lugar para ti que não seja por cima das nuvens.
Há tão pouco tempo falavas,guloso,dos jantares que tinhas programado para receberes os amigos que eram muitos e combinavas caminhadas pelo Cabedelo em nome da saúde que tanto medo tinhas de perder....
E de repente a tua vida mudou e, de ti, chegavam notícias de que já não comias, não falavas e já não nos conhecias.
Não fui visitar-te.Mandei-te um recado "que pensava em ti " e que mais podia dizer-te se tu estavas a morrer e sabias?.
Quando a tua mulher telefonou e disse que tinhas morrido senti-me aliviada.Já não sofrias.
No teu funeral,os teus filhos choraram abraçados.
Eras um homem bom António Prieto e não devias ter morrido cedo.
Havia ainda muitos jantares e muitas conversas ....
LUíSA NOVO VAZ, 2003-07-03



2003-07-03

KATHARINE

Até Tom Hanks, injustamente (por "Philadelphia"-1994, não por "Forrest Gump"-1995), o ter igualado no trono estatístico dos Óscares (Melhor Actor em 1938, por "Captains Courageous", e em 1939 por "Boys Town"), Spencer Tracy planava no éter como um dos poucos exemplos de genuíno bom gosto da Academia. De facto, era notável que, nos anos 30 do Século passado, um actor pudesse transcender-se assim.
Nunca mais lhe deram um Óscar.

Katharine dizia que ele lidava tão mal com a vida, quanto bem com a sua arte.
Lia os guiões de uma só vez, actuava, e nunca discutia os seus papéis.
Pela sua natureza,nunca vimos desenhado na voz de Spencer Tracy o brilho de Katharine, ela própria. Vimos no ecrán, sem pudor, e contudo com discrição, o amor de ambos.
Katharine nunca mais amou a nenhum homem como a Spencer.
Spencer era casado com outra, uma mulher que não quis nunca deixar de ser a Senhora Tracy.
Katharine nunca foi a Senhora Tracy.
Foi a senhora Spencer.

Um Amor que durou 27 anos, porque ele morreu.
Perdão, um amor que durou 76 anos, porque só agora Katharine se lhe juntou.
E até por isso, talvez ainda dure, algures, na nuvem ocidental do nosso crer.

Katharine abanava a cabeça involuntariamente, um tique hereditário (não degenerativo), e foi com esta limitação que ainda nos conseguiu deslumbrar na inesquecível primeira aparição ao lado de Henry Fonda. Acreditam que estes dois vultos do cinema apenas se conheceram na rodagem?
O filme era a "Casa do Lago/On Golden Pound"-1982,Oscar para ambos - o primeiro para Fonda (que foi merecidíssimo, apesar de ter servido também como prémio de carreira, e o quarto e último para Katharine, que se iniciara em 1934 (!), há 69 anos (!), com "Morning Glory").
Como Spencer, bem mais velho que ela, Katharine brilhava pela naturalidade que imprimia às suas personagens - algo impensável nos anos 30, mas que atravessou todo um século.

Não se pode dizer que era uma grande senhora, só porque morreu.
Pode dizer-se isso, porque se viu nos olhos dela a grandeza leve da verdadeira sabedoria. Eu vi. Tinha ela 86 anos.
Dez anos depois, com a mesma serenidade, pé ante pé, sorrindo por certo, foi ter com Spencer, beijou-o ao de leve, e disse:
- Estava a ver que não...

PEDRO GUILHERME-MOREIRA, 2003-07-03

2003-06-30

CEGO,SURDO,MUDO,HOMEM

CEGO, SURDO, MUDO, HOMEM

Sem que ele o saiba, o Zé foi das pessoas que mais me marcou.
O Zé era surdo, mudo e cego. Só a surdez-mudez lhe dava uma trégua de 10% - ou seja, ele era efectivamente surdo - , porque ver, ele só via o seu sonho.
Cruéis como são as pessoas, correu à boca larga em Coimbra, extravasando a própria faculdade de Direito, que o Zé tinha caído num dos lagos da cidade, já que a bengala apenas o avisara do objecto, mas não lhe retirara o direito a tropeçar, como qualquer ser humano que vê. E o Zé, por pouco, não se afogou com a atrapalhação.
Nessa altura, vendo as dificuldades que ele exibia nas aulas, onde ia apenas gravar, e onde às vezes colocava uma ou outra dúvida que os professores dificilmente lhe explicavam, porque ele ouvia quase nada, e sabendo que ele era uma pessoa trapalhona, que caía frequentemente na rua, que trocava os autocarros e os locais onde pretendia ir, as aulas e os professores, o nosso grupo de estudantes cruéis diagnosticou ao Zé o insucesso, e perguntou-se se não haveria limites para a coragem de um homem - limites de pudor.
O Zé deixou de aparecer. Nunca mais o vi.
Soube depois que o Zé tinha feito o curso de Direito em 5 anos.
Fiquei atónito e profundamente feliz.
Concluí então que o que o Zé queria era desdramatizar o seu drama, misturar-se com as pessoas, fazer o que todos os outros faziam. E não desistia, e não queria ajuda.
O Zé tomou consciência de que o mundo era demasiado cruel, recolheu-se ao seu canto, artilhou-se da sua ciência, e deu uma lição a quem não sente nada além de pena a olhar para estes super-homens.
O Zé não era doutor, e como não era doutor era gozado, ridicularizado. Cheguei a ver iluminados a tentarem explicar-lhe que é preciso ter consciência das nossas limitações.
Presumo que o Zé ainda seja trapalhão, tropece e caia em lagos.

Mas o Zé, que era surdo, mudo e cego, é agora o Doutor Zé.
O Zé é um doutor trapalhão, admirado.
Pena ter demorado tanto tempo.

Ele e todos os outros Zés que sofrem em triplicado.
Não lhes basta a parede da diminuição física.
Têm a parede da crueldade humana.
E têm, finalmente, a parede do urbanismo de vão de escada.

Um dia, ainda vos falo de Jaime Lerner, o milagroso de Curitiba.
Hoje falei do Zé, um dos meus heróis.

Pedro Guilherme-Moreira, 2003-06-30

2003-06-25

NASCEU UM BLOG NA NOITE DE S.JOÃO DE 2003

E que noite, senhores!
Também não foi por acaso que o blog "Ignorância" nasceu nesta noite.
Esta é a noite onde as máscaras vão caindo ao chão. Temos até ao nascer do sol, numa praia qualquer, deitados de bruços na areia. Aqui não aparecem as verdadeiras elites, aquelas que acham que não se podem misturar em determinados ambientes. Aqui, a comunhão é total, entre todas as idades, credos e profissões. Senhor ou senhora que olhe de lado o autor de uma martelada, vai enlouquecer durante a noite. Provavelmente, enlouquecerá no sentido certo.
Não é a festa (ou festas) do S.joão do Porto que o distingue de outros momentos do género.
É outra coisa, algo inefável, não dito.
O S.joão do Porto é uma experiência única na vida e no mundo. Há quem considere que não pode morrer sem ir a Paris ou a Roma. Aqui, eu diria Veneza, a Veneza do terceiro olhar. Mas, neste caso, assevero-vos que a experiência do S.joão do Porto, mesmo para quem a experimenta todos os anos, é imperdível. Sem ela, a nossa alma é mais pobre. Não deve adiar a sua presença por mais um ano - vá por mim.

É inefável, mas posso tentar: começa tudo na primeira martelada, em que se troca um sorriso com o agressor, ficando sempre a rolar na nossa cabecinha a pergunta: "Porquê eu?" É uma pergunta que poucos admitem fazer a si próprios, mas que assoma, de forma funda ou a espaços, por toda a madrugada.
É o polícia. O velhinho. O careca. A vareira. O doutor. O Presidente. A menina. A mulher. O Pai. O filho. A boazona. As feias, se as houver. O bebé. O portista. O camone. O bigodes. O gigante. O gordo.
Cada um , toca-nos e é tocado por nós. Literalmente. E também de forma figurada.

Não sei se era suportável viver assim todos os dias.
A dar marteladas, e a levar com elas.
Está ali uma mulher linda, deixa-me pegar no martelo, pega lá. E o sorriso? Oh, sorriso. Agora ela. E sigo em frente. Reacção química.
Alguns dirão que, afinal, é mesmo assim que se vive, todos os dias: a dar marteladas e a levar com elas.

Só que se enganam no termo, que leva outro significado no S.joão:
A martelada é um afago, uma carícia, uma ternura.
Dá-se à mulher bonita, ao bebé, ao velhinho.
Dá-se para adoçar uma cara de pau com um sorriso.

E eu pergunto: há alguma coisa de insuportável na mais nobre atitude?

PEDRO GUILHERME-MOREIRA, 2003-06-24

2003-06-23

PORQUÊ IGNORÂNCIA?

Vamos assumir a crise de ideologias e fés, com o nascimento de uma nova, que acolhe o que de bom pode beber em todo as as outras, e rejeita o que de mau a pode embriagar. Sem compartimentos estanques, sem territórios exclusivos.

Todos somos ignorantes. Mal era que não fôssemos, pois isso poderia querer dizer que a nossa vida era um inferno, na tentativa utópica de abarcar todo o conhecimento.

Por outro lado, todos devemos admitir que o somos. Sócrates já chegou a esta conclusão há cerca de 2.500 anos.
Ou seja, se eu não quiser admitir que não sei algo (quando, de facto, não sei, sendo que "saber pouco" também pode ser "não saber"), não vou ter hipótese de passar a saber, porque o interlocutor que nos poderia ensinar, das duas uma:
- Topa-nos logo à distância, e nem se dá ao trabalho de nos transmitir o seu conhecimento;
- Perante a nossa incapacidade de admissão de ignorância, entende que sabemos, e nada diz.

Pode sobrevir uma terceira atitude. O nosso interlocutor gosta tanto ou tão pouco de nós, que, mesmo assim, nos explica.
E, ou nós aproveitamos essa oportunidade de ouro para aprender, ou então continuamos a fingir que sabemos. E caimos no ridículo.

Este espaço é livre, embora seja natural que se vão criando regras de uso. Para já, há três:
1 - Educação: uso de linguagem moderada, o que não quer dizer exclusão do vernáculo, como é óbvio, em descrições, desde que não dirigido a outra pessoa, seja ela qual for.
2 - Atacar ideias, e não pessoas: devemos reflectir, antes do envio do post, no sentido de apurar se o mesmo contém ataques pessoais, ou se apenas se limita a discussão de ideias;
3 - Igualdade de tratamento entre todos, sendo, inclusive, intenção deste vosso servo e "blogmaster", trazer para a discussão ditos e feitos dos que nem por sombras sabem o que é um computador, quanto mais um blog.

Os temas são livres, embora devam acabar por incidir, naturalmente, nos temas que são mais caros ao "blogmaster":
Pessoas e relacionamento humano, Justiça, Tecnologias, Gadgets, Actualidade e Viagens;


O Ignorante-Mor,

PEDRO GUILHERME-MOREIRA